
o “cristina e sara” do ti virgílio na regata da ria 2010

o “cristina e sara” do ti virgílio na regata da ria 2010
pintura geral

ao mestre construtor, que fez a reparação de manutenção do moliceiro, poderá também competir, dependendo do contratado, a pintura geral da embarcação.
neste registo o mestre zé rito, com o moliceiro virado, dá início à pintura exterior.
com esta foto termina a descrição sumária do “antes da regata”, amanhã é dia dela.
um dia que ficará tristemente para a história, com a associação do kite surf à regata da ria.
para além de lamentável em si mesmo, porque se intromete num evento de cariz tradicional, é mais grave ainda porque apadrinhado pela entidade organizadora da regata – o rancho folclórico camponeses da beira ria -, pelo município da murtosa – quer institucionalmente, quer através do presidente do rancho folclórico que é vereador da câmara – e, espante-se, porque aos moliceiros participantes da regata nada foi dito a este respeito.
mas nesta terra, como dizia um amigo meu, já nem me espanta ver um porco a andar de bicicleta.

(torreira; 30 de junho, 2016)
reparação e manutenção dos moliceiros

o mestre zé rito
depois de quase um ano a céu aberto, em seco e na água, a estrutura dos moliceiros sofre sempre deterioração.
por isso, para poderem participar na regata, é necessário proceder à revisão do estado geral da estrutura e proceder às operações de reparação necessárias.
na publicação anterior falei das pinturas, nesta é a vez de falar da arte de carpintaria naval.
a maior parte dos moliceiros que correm nas regatas e não pertencem a nenhum mestre construtor, vem à revisão e reparação, no estaleiro do mestre zé rito, na torreira.
neste registo vê-se o mestre a reparar o bordo de um moliceiro, mas a actividade nas semanas que precedem a regata da ria, a primeira de cada ano, é grande.
aproveito para relembrar, que se o dono de um moliceiro resolver pintar de novo o barco, muitas vezes precisa, e fazer as reparações necessárias para fazer as regatas em segurança, não lhe bastam os prémios de presença e competição -se ganhar algum – para cobrir todas as despesas.
não digo mais nada, porque o resto já imaginam, depois de tudo o que tenho vindo escrever a este respeito.

(torreira; 29 de junho de 2016)
as pinturas dos painéis e as decorações dos moliceiros

a beleza do moliceiro não reside somente na elegância da suas linhas, as pinturas dos painéis da proa e da ré, fazem de uma regata de moliceiros a única “galeria de pintura flutuante e em movimento” em todo o mundo.
há 25 anos que o pintor josé manuel oliveira e, nos últimos anos, o pai , necas lamarão, se dedicam à pintura de painéis e decorações dos moliceiros.
da invenção da pintura às legendas, são eles, raramente com a ajuda dos donos dos moliceiros, que fazem este reencontro com a tradição.
nem sempre é fácil conseguir juntar pai e filho no mesmo registo, não é fácil mas, desta vez , consegui.

(torreira; 27 de junho de 2016)
coimbra, 28 de junho de 2016.
há exactamente 6 anos, o poeta joão damasceno partiu e deixou-nos as suas palavras, ou seja, ficou mesmo tendo partido.
deixou-nos um livro por editar ” CARTA DE PROBABILIDADES DE EROSÃO CELESTE”. o lançamento desse livro – composto e impresso pelo irmão rui damasceno, na tipografia da família – realizou-se hoje na casa da escrita, em coimbra.
este vídeo pretende apenas mostrar alguns excertos da homenagem.
a seu tempo publicarei a versão integral.
hoje houve uma geração que se chamou “joão damasceno” .
(a sessão foi aberta pelo curador da casa da escrita, antónio vilhena, e a apresentação do poeta feita por joão rasteiro. paulo archer falou sobre a obra e a vida do amigo joão. a poesia foi dita pelo irmão rui damasceno acompanhado pelo sobrinho pedro damasceno)
o homem e o Homem

nunca saberás a força
que os move
o amor nesta mãos
floresce vela
a ciência que ambiciona
tudo querer explicar
queda-se muda
perante estes homens
do amor que os cega
se valem os que nada mais vêem
que dinheiro fácil
de muito poucos
se refazem muitos e remoçam
a regata da ria 2016
começou
quisera eu algo mais
o homem é o maior
inimigo do Homem

(torreira; 27 junho de 2016)
hoje sou a ilusão de mim

perco-me de tanto
olhar
de ser tão pouco
quase
quase não ser
o que vejo
não sei se existe
como o vejo
ou se
como o imagino
apetecia-me ser nada
sobre coisa nenhuma
etéreo e efémero
hoje sou a ilusão de mim

(torreira; junho, 2016)
a escolha

no escolher dos amigos
a mesma precisão
com que eles o peixe

(torreira; companha do marco; 2010)
a fotografia, a tradição, a memória e os interesses

a limpidez da memória no registo do momento
não há nada pior que um povo sem história, não é povo sequer. e o que é a história senão o somatório das memórias preservadas?
a fotografia é, desde que surgiu, mais um instrumento de construção da história, porque produtora de memória, com a relevância de ser um registo visual e de impacto.
desdenhar da fotografia é desdenhar da história e da memória. é desdenhar do povo e da sua cultura.
sujar o campo visual da reconstrução da memória é sujar a memória do registo intemporal, quem dera, do momento.
entendam agora porque sou contra o acompanhamento da “regata da ria” por praticantes de kite surf: sujam a memória, impedem o registo limpo de um tempo recuperado.
virá o tempo em que perguntarão porque se estragaram momentos tão belos. mas será tarde para impedir a ganância de alguns, a ignorância de outros, a falta de cultura de muitos e a indiferença da maioria.
poderíamos cantar aqui, assim: assim se desfaz portugal!

é tão frágil esta beleza perante a ignorância
(murtosa; regata do bico; 2012)
até amanhã ao sol

estou cansado
de tantas lutas
tantos anos
dou-me porque sim
porque sou
esta cabeça lucidamente
tonta de tanto sonho
continuo a não ser daqui
sem saber de onde sou
mas continuo
não precisam de contar
comigo eu conto
pararei quando
chegar o dia de parar
de vez de vez
até amanhã ao sol

(torreira; regata do s. paio; 2015)