
depois da apanha a escolha
já cheira a mar

o segredo da escolha está nas mãos e nos olhos
o delmar viola escolhe o carapau de acordo com o tamanho
(torreira; companha do marco; 2014)

depois da apanha a escolha
já cheira a mar

o segredo da escolha está nas mãos e nos olhos
o delmar viola escolhe o carapau de acordo com o tamanho
(torreira; companha do marco; 2014)
abril vinte e cinco e os cravos

dos cravos não consta
que espinhos
não os temas por isso
não tos vi hoje na lapela
e admiro-te
na sinceridade de os não
teres posto
aí onde estás lustroso
sorridente
aos cravos o deves
ou será que aí estarias
mesmo sem eles
sem democracia?
nunca se sabe

(ria de aveiro; torreira)
abril vinte e quatro

abril vinte e quatro
mil nove setenta e quatro
não sabíamos de amanhã
do amanhã que hoje
sabemos que ia ser
recordo os mortos nas
guerras criminosas no
silêncio das prisões às
mãos sádicas de não homens
que vimos condecorados
para nossa vergonha
depois de
abril vinte e cinco
quarenta e dois anos depois
é amanhã e podemos sair
à rua e por sermos mais de dois
não seremos presos

(torreira; regata do s. paio; 2012)
dar voz a quem

saco seco, sacudido, para cima da zorra
a fotografia aos fotógrafos
a poesia aos poetas
nada mais vos quero deixar
que a memória das gentes
as palavras do que sinto
sou ou tento ser
tenho a noção
do quão pouco valho
mas não seja por isso
que nada faça
como esta gente carrega
as redes que ao mar se hão-de fazer
também eu dou o que tenho
sabendo que mesmo pouco
falta fará que seja feito
leio vejo escuto
com nada fico
se tenho dou reparto
migalhas sejam
como estas
pão à mesa de quem
não tem voz

a companha são todos
(torreira; companha do marco; 2015)
estar vivo é perigoso

olhar para dentro de tudo
só te saberás
se tentares ser mais
o mais desculpas serão
para seres o de sempre
o do sofá da sala
do pão certo à hora certa
sobrevivente de ti
estou cansado até
ao mais fundo de mim
doo-me de tanto
estar vivo é perigoso

fotografar é sentir com os olhos
(torreira; s. paio; 2014)
rapar a ria

com um balde e um pequeno ancinho, na maré vazia, nos cabeços em seco ou com pouca água a cobri-los, apanhava-se a amêijoa japónica, o berbigão.
ao longe, nada mais vês que um casal que parece passear por sobre as águas, povoando o silêncio com as suas vozes, que não ouves mas imaginas
uma paisagem belíssima, um lugar onde o silêncio se ouve e os olhos se limpam da sujidade urbana.
ajoelham-se, pousam o balde, pegam no ancinho e começam a “rapar” a lama da ria. dirias como se batatas, mas aqui, na lama, são amêijoas que colhem.
horas seguidas, tantas quantas a maré permita, que o corpo, esse terá de aguentar.
sobreviver aqui é sobre-utilizar o corpo, desgastá-lo, moê-lo, consumi-lo.
e tudo em silêncio vai pingando para os bolsos dos mesmos, dos que não estão na fotografia.
a japónica deu de comer a muita gente durante dois anos depois, num inverno mais longo e chuvoso, as águas adocicaram e morreu. dela pouco ou nada resta.
os homens e as mulheres, continuam a caminhar e a rapar a ria, são menos, a colheita é pobre, vivem do que a ria ainda dá.

(torreira; 2012)

o stalone, o horácio, o calão, a mão de de barca, a manga
ao fundo virá o saco
no fundo do saco, talvez peixe
se peixe houver, que peixe será
se for do vendável, a como o comprarão, se é que o comprarão
é peixe fresco, é peixe do mar, é suor desta gente
quem o come, come ouro, mas alguns ainda o querem dado. estão de férias e esquecem-se que só o estão, porque lhes pagaram o ano inteiro.
quando aqui chegares traz mais
que uma máquina
um fato de banho
um desejo de sol e mar
traz o entendimento
que esse
nunca o deixes ir de férias

(torreira; companha do marco; 2013)

joão manuel brandão
a arte da cabrita alta

(torreira; 2012)
a vida antes da morte

não me preocupa o que acontece depois de morrermos, preocupa-me sim o como morremos.
no momento em que em portugal se vai discutir a legalização da eutanásia, tudo o que com ela se relacione, nos países onde já é legal, é notícia. infelizmente nem tudo, só aquilo que interessa a quem dominando os meios de comunicação se opõe à sua legalização.
não haverá muitos dias, numa estação de rádio, foi transmitida uma entrevista com uma enfermeira portuguesa a trabalhar na bélgica, que tinha participado numa morte assistida.
a moça estava chocada, disse que se recusava a participar em qualquer outro acto semelhante. relatou que a pessoa em causa, uma mulher, estava lúcida, era saudável, mas “sentia-se só e queria morrer”.
nem a filha a demoveu, e no momento do desenlace despediram-se uma da outra com um
“amo-te”
ora tudo isto aconteceu num “lar de idosos” onde a enfermeira trabalhava, disse.
nunca a ouvi questionar o funcionamento do lar. porque é que num lar uma pessoa se pode sentir só?
se é assim na bélgica, como será em portugal?
assustam-me os lares de idosos, como me assusta o sofrimento que só adia a morte.
preocupa-me que uma pessoa saudável, se sinta só num lar e peça para morrer.
preocupa-me esta sociedade egoísta e cínica que não vê que a maioria dos “lares de idosos” são a prática “piedosa” da eutanásia.
preocupa-me

(torreira; regata do s. paio; 2012)
meditação breve

a fotografia aos fotógrafos
a poesia aos poetas
nada mais vos quero deixar
que a memória das gentes
as palavras do que sinto
sou ou tento ser
tenho a noção
do quão pouco valho
mas não seja por isso
que nada faça
como esta gente que espera
os que ao mar se hão-de fazer
também eu dou o que tenho
sabendo que mesmo pouco
falta fará que seja feito
leio vejo escuto
com nada fico
se tenho dou reparto
migalhas sejam
como estas
pão à mesa de quem
não tem voz

(torreira; companha do marco; 2009)
cheguem os que ao mar vão, que tudo está pronto para a partida e a voz de mando do arrais