crónicas da xávega (162)


quero ser barco

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estátua nome de rua
jardim praça medalha
não as quero
sequer as mereço

nada fica
de quem a tudo se deu

se me disserem de pedra
acreditem
tudo o que de mim digam
é verdade ou foi

estou cansado velho
gasto desconjuntado

no tempo que me falta
quero ser barco

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(torreira; coampanha do marco; 2014)

postais da ria (163)


em torno de mim

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impossível este silêncio
este momento sem tempo
quase um quadro
onde nada perfeito é

desvendar os olhos
imaginar os gestos
imperfeitos de humanos
o movimento cadenciado
das mãos o trabalho
a carícia ou a sua ausência

o vento sorri
e eu sou o que resta de mim
o que fizeram do que fui

o círculo
lembro-me de o ter escrito
algures
por mais largo que seja
fecha-se sempre

as pontas começam a unir-se

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(murtosa; cais do bico)

os moliceiros têm vela (212)


espero

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espero
as palavras sensatas
a resposta
cordata e pensada
reconhecidos
o erro a falta

espero
a justa paga porque
prometida
e como tal devida
a quem por ela fez
mais do que
quem dela sem saber fala

espero
mais que tudo
e como sempre
que os homens sejam
a palavra dada
convertida
no pagamento devido
só isso

sou as águas calmas
da ria
mas também as vagas
quase de mar
quando do norte
o vento forte
em rajadas

espero
mas não muito

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(torreira; regata do s. paio; 2012)

crónicas da xávega (161)


o arribar

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depois de presos os ganchos nos arganéis da proa – arribar de proa – é preciso correr para fugir ao perigo, não só porque pode haver um movimento lateral do barco, mas também porque o tractor começa de imediato a puxá-lo para terra.

é um momento perigoso para todos.

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(torreira; companha do marco; 2013)

crónicas da xávega (160)


só esses

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a companha carrega o saco na zorra

vêm da terra as vozes
que não ouvimos
o termos nela raízes
é o silêncio de sermos
sem necessidade de alarido

escrevo nós
e não é o pronome que ouço
são os laços
tão fortes e tão frágeis
que o tempo romperá a seu tempo

não precipites os dias a haver
vítima serás
se carrasco quiseres ser

abraço quem me abraça
escreveu o poeta
eu também

só esses

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todos unidos, são a companha

(torreira; companha do marco; 2015)

os moliceiros têm vela (211)


“CORREIO

Chegam cartas, chegam pedaços
do meu país
Chegam vozes. Chega um silêncio que me diz
as revoltas as lágrimas os cansaços.
Chegam palavras que me apertam nos seus braços.

………..

Manuel Alegre

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dou-vos a minha palavra

desabitado espaço este
o de haver palavra dada
e ser cumprida

sei que sou português aqui
josé fanha
e o sabê-lo faz de mim mais
do que o que sou
sou os portugueses que de mim
precisam e em mim confiam

sou a minha palavra
a dada aos que o meu respeito
merecem por serem
como muito poucos
portugueses aqui também
para o serem ainda mais além
do que nesta parca geografia
que os sufoca

cresci com homens bons
gente da terra porque a terra neles
não será agora que negarei
a herança

dou-vos a minha palavra

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(cais do bico; murtosa)

os moliceiros têm vela (210)


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PAGUEM O QUE DEVEM AOS MOLICEIROS

enviem esta mensagem para:

geral@regiaodeaveiro.pt

que é o mail da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro – Baixo Vouga (CIRA), organizadora da regata da ria 2015.

não basta gostar dos moliceiros é preciso lutar por eles e com eles

geral@regiaodeaveiro.pt –  PAGUEM O QUE DEVEM AOS MOLICEIROS

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(torreira; regata da ria; 2013)