da leitura

tivesse eu lido
o homem
como o homem
lia o mar
soubera eu

(torreira; 2016)
da leitura

tivesse eu lido
o homem
como o homem
lia o mar
soubera eu

(torreira; 2016)
escrevo-me

o “bulhas”
escrevo-me d e v a g a r
vermelho
sangue de mim
palavras
deitadas ao vento
na ria

(regata da ria; 2017)
das redes

álvaro gavina
roupa que não vestem
mas que lhes traz o pão
as redes
querem-se limpas
(torreira; 2017)
(re)começar

o arribar da mão de barca
depois de mim
tudo continuará
porque não
começar já o depois?
(costa de lavos; companha do armando; 2017)
” – ti zé, quando é que podemos gravar ?
– oh cravo, agora estou sozinho, mas pode ser segunda-feira pelas 6 da tarde”
foi assim e na segunda-feira, dia 12 de junho de 2017, nos juntámos na cozinha do ti zé rebeço e fizemos a gravação a que assistiram..
houve estórias para além de haver bateria que a memória é rara, as vivências muitas e o homem enorme.
memória de um tempo, de uma geração, de uma ria que já não volta mas importa celebrar e, porque não, reviver.
obrigado ti zé, há momentos em que vale a pena estar vivo, estes foram momentos em que valeu a pena.
(depois de ouvir a história de vida do ti zé rebeço)

eis o homem
sejam nele todos quantos
antes muito antes
araram e ceifaram a ria
límpidas e puras as palavras
como então as águas
que sulcavam a bordo dos seus barcos
homens sem nome sem rosto
moliceiros desconhecidos
a quem a terra que adubaram
que a tantos deu de comer
ainda lembra mas não recorda
ao moliceiro desconhecido
na terra que o viu nascer
tudo mas tudo lhe é devido
tarda a hora de o fazer

(o ti zé rebeço revive a descarga com moliço, no cais do bico)
caminhos de areia

de praia em praia
outros os homens
a mesma arte
diversos os fazeres
percorro caminhos de areia
olhos postos nos homens
e no mar
sempre no mar
encontro homens
barcos redes
sal suor peixe
vou por aí
mas vou sempre sempre
para o mar
(torreira; 2016)
é urgente uma flor

depois de tudo ter ardido
é urgente uma flor
todos
todos merecem uma flor
é urgente reaprender
a florir
é urgente uma flor

(regata da ria; 2010)

hoje é o primeiro dia
de luto
façamos dele
mais um dia de luta
pelo planeta
pelos povos
contra a estupidez cega
do lucro desenfreado
pelo cumprimento
do acordo de paris
hoje é o primeiro dia
de luto
mas não me basta que o seja
quero mais
hei-de querer sempre mais
um dia de luta

(regata da ria, 2010)
aos que morreram pela mão do fogo

aos que morreram pela mão do fogo
e foi atroz a sua morte
nada os trará de volta
mas que fique claro
que nada acontece só
por vontade da natureza
há mão do homem
a forçar o evitável
quando se lembrarem deles
lembrem-se do acordo de paris
da urgência de o cumprir
aos mortos
nada os trará de volta
aos vivos
que lhes sirva de lição
isto anda tudo ligado
escreveu o poeta há muito
mas podia escrevê-lo hoje

(regata da ria; 2009)
cuidado com os crocodilos

sábado 1 de julho
dentro de duas semanas
por esta hora
estaremos na ria
seremos de novo os cisnes
renascidos
aos que abatidos foram
a memória trá-los de volta
e honra-os
aos que mutilados
andam pelos canais de aveiro
a memória trá-los de volta
belos e inteiros
aos homens que continuam
por amor e com amor a tudo fazer
para que os moliceiros não morram
a memória dirá deles que heróis foram

um dia
porque poderá haver um dia
haverá nos olhos de alguns
lágrimas de crocodilo
fica para esses um aviso
não se aproximem da ria
porque podem
aparecer crocodilos a sério

(regata da ria; 2009)