os moliceiros têm vela (281)


carta aos resistentes

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não se darem as mãos
não serem um
habitado por muitos

admiro que ainda
perguntas-me como

só encontro uma palavra
amor

assim a terra
o entendesse

não se darem as mãos
não serem um
habitado por muitos

não é sonho
é viver ou morrer

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(regata do bico; 2017)

mãos de mar (32)


sorriem muito

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mãos de mar, mãos de luta

não tomam posição
sentam-se à mesa do mas
trocam ideias discutem
não concluem nunca

gostam muito do talvez
evitam nãos e sins

são espectadores
que querem palco
de bandeja sem suor

à janela dos dias
esperam um vaso de flores
no peitoril dos olhos

de tão subviventes
conseguem
ser sobreviventes

sorriem muito

(torreira; 2015)

a beleza do sal (22)


o trilho estreita-se

0 ahcravo_DSC_3483 buíça

diz-se “mexer” (buíça)

o trilho estreita-se
desce entre precipício
e rocha a pique

a espaços um recanto
acolhe o corpo cansado

inesperadas pedras
tombam de onde nunca
ferem mais por isso

mas
não foi sempre assim?

(armazéns de lavos; 2017; mexer)

os moliceiros têm vela (280)


sonharei sempre

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sonharei sempre
de olhos abertos
atento às palavras

recuso-me a ser
o que cala e aceita
sem questionar

também o sol
que aquece e ilumina
projecta sombra

que dizer da lua
e das suas duas faces

sonharei sempre
de olhos atentos
questionarei

deixo as certezas
para os treinadores
de bancada

levo comigo a dúvida
companheira amiga
na busca de saber

sonharei sempre

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o “A. Rendeiro” com o ti zé rebeço e manel antão

(torreira; regata do s. paio; 2015)

postais da ria (224)


durmo mal

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safam-se as redes, limpa-se o lixo

sei demais
mesmo sabendo pouco

vivi muito
durmo mal

não me digas o que és
poderás iludir-me
com o dizeres-te-me

as ilusões são breves
por isso são

o tempo e tu mesmo
me dirão de ti
o que não me disseste

espero-te sentado
enquanto leio

não sei muito
mas vivi quanto baste
e durmo mal

não me embalas
com cantigas

(torreira; 2017)

vim de onde


vim de onde

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vim de onde quase
tudo ardeu
se de luto os homens
de negro foi a terra
que se vestiu

fumos brancos breves
brotavam das cinzas
memórias do inferno

depois de ter visto
sentido e cheirado
as palavras são só isso

para que não se repita
a espada tem de cortar o fogo
antes de mais fogo haver

há quem ateie agora
o fogo que lhe dá jeito
por mim deixo-os arder nele

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(19/10/2017)