a beleza do sal (16)


é verão

0 ahcravo_DSC_3781 buíça

buíça, marnoto, 81 anos de idade

salgados são os dias
cansado o corpo
vergado ao peso do sol
à pureza do sal

é verão
pelas praias a banhos
muitos são

salgados vão os dias
salgado é o pão

o sol que te queima
o mar em que te banhas
à tua mesa sal serão

salgados são os dias
salgado é o pão

é verão
às praias a banhos
nem todos vão

(armazéns de lavos; salina do buíça; mexer)

os moliceiros têm vela (271)


és tu sou eu

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varanda sobre a ria

não estranhes que
te estranhem
se estranho és
estranho seria que
te não estranhassem

ser o outro
a forma de seres tu
num mundo
em que ser é ser eu
é seres estranho

abraça quem te abraça
e deixa passar quem
por ti estranhando passa

este mundo meu amigo
pode não ser o teu
mas tu serás sempre
o mundo do teu amigo

não é estranho
és tu sou eu

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foi um sonho, hoje é realidade

(murtosa; regata do bico; 2017)

 

crónicas da xávega (208)


arrancaram-lhe as raízes

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arrancaram-lhe as raízes
picaram-lhe com finas agulhas
os órgãos de sentir
fizeram-no de pedra bruta
in sen sí vel

chorou encostado a uma parede
era de dia e havia gente na rua

sabias que se pode gelar de verão?

não lhe arrancaram a memória
nunca o conseguirão

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(torreira; 2013)

os moliceiros têm vela (269)


 

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moliceiros na ria
(porque sei que há futuro)

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recuso o fausto da celebração
da memória

recuso a homenagem póstuma
aos assassinados

e digo

sim ti abílio
se eles quiserem
se eles nos deixarem
se eles nos apoiarem de facto

vamos ter sempre
sempre ti abílio

moliceiros na ria

 

(regata do bico; 2010)

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