por mais duro

o sorriso nos meus lábios
por vezes amargo
ouve-o atento
não é fácil iniciar caminhos
mais duro sentir que terminaram
quando vires não cales
quando ouvires mostra
por mais duro
(torreira; 2014)
por mais duro

o sorriso nos meus lábios
por vezes amargo
ouve-o atento
não é fácil iniciar caminhos
mais duro sentir que terminaram
quando vires não cales
quando ouvires mostra
por mais duro
(torreira; 2014)
da areia

o arribar do saco
todos os caminhos são
de areia
quando o esquecemos
areia fomos
(torreira; 2009;
é verão

buíça, marnoto, 81 anos de idade
salgados são os dias
cansado o corpo
vergado ao peso do sol
à pureza do sal
é verão
pelas praias a banhos
muitos são
salgados vão os dias
salgado é o pão
o sol que te queima
o mar em que te banhas
à tua mesa sal serão
salgados são os dias
salgado é o pão
é verão
às praias a banhos
nem todos vão
(armazéns de lavos; salina do buíça; mexer)
resiste

companheiro
é hora de naco de broa
e cajado
reparte com os amigos
o pão
o cajado também é arma
resiste

(murtosa; regata do bico; 2017)

abriu os braços
mostrou os dentes
sorriu julgam
alindou a casa
abraçou a família
perfeito dizem
tirou do chapéu
um coelho branco
soltou uma pomba
da mesma cor
abriu os braços
alindou a casa
quem não sabe
dirá que voa
pantomineiro

(lisboa; gare do oriente)
da vida

o meu amigo norberto
só a incerteza
é certa
assim vivo

(safar redes; torreira; 2017)
a raiva acesa

quem foste tu
que hoje não és?
quem amava morreu
quem vive matou-me
quem fui eu
que não sei ser?
a mão sustém memória
dentro dela eu
a raiva acesa
nas pontas dos dedos
a raiva acesa
(torreira)
és tu sou eu

varanda sobre a ria
não estranhes que
te estranhem
se estranho és
estranho seria que
te não estranhassem
ser o outro
a forma de seres tu
num mundo
em que ser é ser eu
é seres estranho
abraça quem te abraça
e deixa passar quem
por ti estranhando passa
este mundo meu amigo
pode não ser o teu
mas tu serás sempre
o mundo do teu amigo
não é estranho
és tu sou eu

foi um sonho, hoje é realidade
(murtosa; regata do bico; 2017)
arrancaram-lhe as raízes

arrancaram-lhe as raízes
picaram-lhe com finas agulhas
os órgãos de sentir
fizeram-no de pedra bruta
in sen sí vel
chorou encostado a uma parede
era de dia e havia gente na rua
sabias que se pode gelar de verão?
não lhe arrancaram a memória
nunca o conseguirão

(torreira; 2013)

moliceiros na ria
(porque sei que há futuro)

recuso o fausto da celebração
da memória
recuso a homenagem póstuma
aos assassinados
e digo
sim ti abílio
se eles quiserem
se eles nos deixarem
se eles nos apoiarem de facto
vamos ter sempre
sempre ti abílio
moliceiros na ria
(regata do bico; 2010)
