crónicas da xávega (213)


o meu país

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o carregar do saco

o meu país é habitado
mora nas minhas fotos
nas minhas palavras

o meu país é de carne
osso e muito suor
mal pago

o meu país dói-me
e se luto faço
é porque luto
todos os dias

o meu país
é habitado
ainda

o meu país é de carne
osso e muito suor
mal pago

até quando?

(praia da leirosa; 2017)

mãos de mar (31)


há mão humana

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o meu país arde
a galiza arde
há mão humana
do início ao fim

há mão humana
nas alterações climáticas

há mão humana
no abandono
no desleixo
no é meu
aqui mando eu

há mão humana
no crime

há mão humana
nos salvamentos
no heroísmo
na impotência
no espanto

no que resta nas cinzas
onde descobrem nome
há mão humana

há mão humana
há mão humana
há mão humana

não conheço outra

(torreira; 2014)

os moliceiros têm vela (279)


eu tenho um sonho

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como os barcos
assim fossem os homens
não os que neles
que maiores ainda são

dessem-se as mãos
as vontades os quereres
fizessem-se actos
as palavras ditas semeadas
esparsas solitárias

soubessem-se moliceiros
todos
diriam em voz de se ouvir

“somos esta terra
a sua memória o seu futuro
merecemos mais”

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(murtosa; regata do bico; 2017)

crónicas da xávega (212)


destino de pescador

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à memória de cipriano brandão (gamelas)

não têm nome
são pescadores
só o mar a areia e o norte
os conhecem

quando por feitos
direito tiveram
a nome e o publicaram
a terra esqueceu-os

partem sempre um dia
humanos que são
perdem-se no nevoeiro
que sobre eles lançam

aqui estão todos
os que foram
os que ainda são
os de amanhã

não têm nome
não sei se o terão

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à memória de cipriano brandão (gamelas)

(torreira; 2016)

 

morreu o meu amigo cipriano


 

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o cipriano talvez há vinte anos, mas sempre hoje, para sempre

sexta-feira 6 de outubro
um amigo
um amigo de muitos anos
um homem do mar
da ria da torreira
um homem

partiu cedo demais

deixou um buraco
nos dias por vir

chama-se cipriano
chamar-se-á sempre
cipriano brandão (gamelas)

o abraço que lhe dou hoje
dei-lho sempre
há muitos anos que lho dava
que o recebia

os amigos
só partem quando nós também

cipriano
ficas comigo

a beleza do sal (20)


não há ciências exactas

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rer

exacto o que vejo
exacto o que sinto
exactos estes dias
por onde arrasto o corpo

não há ciências exactas

exacto o momento
em que escrevo a dor
exacto o sorriso
no rosto da criança
exacto estar aqui ainda
exacta a lágrima

exactas estas palavras
toma-as e faz com elas
o exacto instante
em que tudo é possível

eu vou por aí
em busca de outro final

(armazéns de lavos; rer; 2017)