envelope

há quem se sonhe carta
quisera-me eu envelope
e é tanto
se o conseguir

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2014)
envelope

há quem se sonhe carta
quisera-me eu envelope
e é tanto
se o conseguir

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2014)
só

2009, a muleta tradicional
sou
o que se foi fazendo
os princípios sempre
as pedras e os afagos também
não o outro o que gostariam
que apesar tudo
continuasse
a ser
o que me dói ser assim
o ter chegado ao que sou
eu por dentro e por fora de mim
escrevo-o com lágrimas
e raiva raiva raiva raiva
um dia vou acordar nunca
para ser eu
só

com o tempo muito se altera, as coisas e as pessoas. já lá vão 7 anos
(torreira; companha do marco; 2009)
hoje estou longe

o ti virgílio no sara e cristina
na terra ficaram poucos
que de pobre
futuro lhes negava
pouco levaram que
nada tinham
a não ser a memória
partiram muitos
mais que os que ficaram
à espera de vez
ou do regresso dos que
tinham partido
onde quer que estejam
estão sempre aqui
nestas palavras e imagens
onde também eu
abraço-os a todos
porque como sempre
hoje estou longe

um senhor no seu moliceirinho, o ti virgílio
(murtosa; regata do bico; 2008)
hoje sou puto
(para o meu amigo ricardo)

o ricardo, o sílvio e ao fundo a aurora e a cacilda
continuo a chamar-te puto
e já és maior que eu
mas eu também envelheci
não é puto?
o barco é novo mas nós
conhecemo-nos
no primeiro M. Fátima
e cá estamos
tu feito um homem de mar
eu com a minha máquina
a salgar imagens na memória
olha ricardo
quando digo “puto”
também eu
continuo a pensar
que não envelheci
já lá vão onze anos
puto
onze anos e foi ontem
mas hoje
hoje sou como tu
hoje sou puto

o ricardo e o calão
(torreira; companha do marco; 2016)
da memória e das palavras

o ti zé rebeço
olho para a foto do ti zé rebeço e lembro-me dos meus tempos de canalha e de quando ia comprar leite a casa dos pais dele, mesmo em frente à dos meus.
e a palavra “canalha”, lembra-me outra que o meu tio avô, césar gorim, costumava usar numa frase que amiúde lhe ouvia – “são uns garotos” – e que ainda ouço na boca do ti zé rebeço.
na murtosa, quando as pessoas diziam “canalha”, referiam-se à “miudagem” e quando se usava a palavra “garoto”, era para classificar aqueles que usando calças se julgavam homens e faltavam à palavra dada, aldrabavam, enfim…….
hoje, se digo “garoto” refiro-me a um miúdo, e se digo “canalha” é insulto e toda a gente o sabe.
voltando ao ti zé rebeço e à memória de um tempo, usando as palavras dessa época e da terra, queria dizer:
– cada vez há menos canalha por aí e garotos, infelizmente, ainda continuam a abundar
(torreira; regata da ria; 2011)
hoje sou âncora

o joão gordo a cirandar
já não procuro as raízes
onde a árvore
encontrou a terra e se fez
bem fundo
na água salobra da ria
no mar da torreira
no nome herdado
não o do cartão
mas a alcunha
mais que cravo
sou gorim
quem se lembra
da ti apolónia
do gorim?
serei o último
nesta terra que os viu nascer
e pouco ou nada
deles sabe
em newark
os cravos gorins são
memória emigrada
os últimos também
hoje sou âncora
varada na areia de uma praia
condenada ao abandono

uma caixa de fruta, o fundo alterado e …. temos uma ciranda e a criatividade do pescador
(torreira; junho, 2016)
assassino

pelo mesmo nome responde o homem e o barco
enorme o barco
maior o homem
respondem pelo
mesmo nome
e não sei quem
primeiro foi
se o barco
se o homem
morrerá o barco
com ele o homem
digo então
que quem matar o barco
mata o homem
não importa
se por ignorância
ou incúria
quem o fizer
será sempre
assassino

sempre pronto para a brincadeira, um moliceiro com paixão, o ti abílio
(torreira; regata da ria ; 2011)

o ti henrique cunha a cirandar
ainda há força nos braços
depois de horas
a arrastar a cabrita pelo lodo
a dança da cabrita
é violenta
o fruto é cada vez menos
abundam as conchas
onde antes bivalves
homens mulheres jovens
mais velhos
todos todos caminham
no lodo
parecendo ao longe
que sobre as águas
é tempo agora de cirandar
depois escolher
e no fim vender ao preço
que o comprador disser

o ti henrique cunha a cirandar
(torreira; junho; 2016)
o mar tarda

a albina e a aurora aos bordões da mão de barca
o mar tarda este ano
tarda o peixe no saco
tarda o pão na boca
que inverno
depois deste verão
que nunca?
olho-as e penso
mulheres do mar da torreira
que mar é este?
por dentro de mim
corre uma tristeza por tudo
e não há nortada
que limpe o nevoeiro
que carrego
vivo de algumas memórias
outras me matam devagar
o mar tarda e eu

(torreira; companha do marco; 2013)
pai e filho
(ensino-te a arte
que me ensinaram
dou-te o amor
que me deram
de pai para filho)

o nuno (filho) enche a cabrita que o pai (nuno) segura
gostava que houvesse
futuro
por onde os meus olhos
ainda
gostava de te dizer
de pai para filho
deixo-te um amor
uma terra uma gente
mas sei
sinto
que me fico
por estas palavras
por este saber que
não há futuro aqui

pai e filho, a mesma arte
(torreira; junho, 2016)
pai e filho têm o mesmo nome, nuno. pai e filho partilham a arte. até quando?