postais da ria (145)


joão manuel brandão (3)

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sofridas letras
esculpidas na carne
escritas no rosto

saber os caminhos
do suor ao oiro
da dor à fortuna

é uma outra ria
onde é sempre
maré vazia
cheia de lamas
apodrecidas
depositadas
nas margens

este é o postal
que não encontrarás
no sítio habitual

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(torreira; cabrita alta; 2012)

crónicas da xávega (141)


resistir

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o ti américo na manga do reçoeiro, no alador

a manga no alador
corre
o fim do lanço quase

os anos pesam
mais a rede
mais a necessidade

a língua espreita
o esforço
as ganas de continuar

um homem não é
uma máquina
resiste resiste resiste

está vivo muito

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conhaque é conhaque, serviço é serviço

(torreira; companha do marco; 2015)

 

crónicas da xávega (139)


aos que trocaram o certo pelo incerto

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aqui se mostra portugal

falo do mar e dos homens
falo de nós
não dos dos brandos costumes

de nós
dos que desafiaram o sonho
para o tornar realidade

de nós
dos que inventaram ser maiores
que a terra onde nasceram
e partiram para serem
o que lhe negavam

falo de nós
dos que trocaram o certo
pelo incerto

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repito-me: são estes os homens que o hino canta

(torreira; companha do marco; 2010)

postais da ria (141)


revisito-me

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corre a rede por entre os dedos

correm lestos os dias
por entre os dedos
aragem breve subtil

súbito
temporal
de tantos havidos

fui neles o mais
que soube

assisto-me sem
críticas de

revisito-me

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com o salvador belo, no meio da ria

(ria de aveiro; torreira; largar da solheira)

 

crónicas da xávega (138)


ti antónio neto

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como sempre, calado a olhar para o longe

escrevo mar memória
cansaço vida morte
conto o tempo
os dias onde já não

sei ti antónio
que já partiu

tarefa pesada esta
de carregar certos dias
como se menos um

recordo então os rostos
dos que partiram
vejo-os sorrir de novo
reinvento o tempo
um tempo de sol e mar
o nosso tempo

revejo-o  ti antónio

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ao mar ao fundo continuará sempre

(torreira; companha do marco; 2009)

postais da ria (140)


assim o vento

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marginal aqui, incomodo

sou o que o vento
levará ao mar
depois de tanta terra

o meu tempo é
não foi nem será

é
e serei nele
os que comigo

chego súbito
como quem parte
sem despedida

assim o vento

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a bandeira da diferença

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio, 2014)