“quando o mar trabalha” o fotofilme


ahcravo_30_DSC9871 (1)

início dos anos 70

em 2018 publiquei o meu segundo livro, com o título ” quando o mar trabalha” – está esgotado. um amigo, o amigo de sempre, fez com as as fotos do livro o filme a que assististe.
mas o livro não era só fotos, eram também “falas”, por isso ficam aqui algumas palavras, algumas “falas”.
aqui ficam três
“caminho na areia
não sou daqui
estranho este chão macio
quase não chão
quero ver os meus irmãos
trabalhadores do mar
saber de outras fainas
venho de negro
a minha cor desde que
também eu amo o mar
por isso
até morrer
o venho sempre visitar “
“sou a que fica em terra
à espera dele
a que trabalha desde que as pernas
suportam o corpo
até que o corpo as não sinta
sou a que grita
quando o mar está bravo
o barco sobe na crista da onda
o arrais
bota! bota! bota!
sou a que se faz ouvir no nevoeiro
dizendo que a terra é aqui “
“este rosto vos deixo em testamento
riqueza única amealhada
em vida
sou todos os que foram
fui todos os que serão:
destino com porta virada para o mar
este rosto vos deixo
de ser eu
Pescador da Xávega
este rosto vos deixo
cuidai de o não esquecer “
outras há que muitas são as “falas” das fotos
o livro entretanto esgotou, agora só juntando no mínimo 20 pedidos se podem mandar vir mais.
obrigado a todos os que me permitiram fazer este livro, editado pela ” Almalusa” que se responsabilizou pelo design também, com o empenhamento pessoal, como é hábito, do meu amigo jorge pinto guedes.

crónicas da xávega (346)


a hora do quinhão

SONY DSC

praia de mira; 2009

 
não têm rosto
nunca o tiveram
mesmo que o produto da sua faina
seja o mais apreciado
 
são pescadores artesanais
das artes da arte-xávega
da xávega
 
pescadores
quase todos o foram
para voltarem a ser
 
longe do mar fizeram vida
a vida que o mar lhes negou
 
regressam por vício
ou porque
como o povo diz
o bom filho a casa torna
 
é a hora do quinhão
que foi boa a pescaria
 

postais da ria (355)


os amigos de

0 ahcravo_DSC7967

torreira; jim; safar redes; 2019

 
sentava-me à mesa do café
lia poesia
 
os meus poetas à minha mesa
falavam-me
 
eu era jovem e o tempo imenso
 
sentava-me à mesa do café
sem urgências
 
as de agora com tanta fome
dos amigos de então
 
os moliceiros têm vela (405)

os moliceiros têm vela (405)


meditação sobre a palavra

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

cais do bico; cipriano brandão; 2006

 
o homem inventa
a ferramenta
que reinventa o homem
e a palavra
 
a palavra para denominar
a ferramenta
 
a ferramenta exigirá novas
ferramentas novas palavras
 
o poeta inventa a palavra
pelo prazer da música das letras
pela sonoridade pelo ritmo
pelo prazer de
 
as palavras do poeta
não nomeiam nada excepto
a si mesmas e são
as mais puras criações
do homem

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

cais do bico; cipriano brandão; 2006

 
os moliceiros têm vela (404)

os moliceiros têm vela (404)


é um amigo

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

cais do bico; regata do emigrante; 2006

um homem caminha na ria
um amigo aqui agora
sempre
 
súbito tudo é memória
 
sei que nunca se regressa
sei que a memória
é a única forma de voltar
 
nada mais resta
nada mais
resta
 
um homem caminha na ria
é um amigo

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

cais do bico; regata do emigrante; 2006

os moliceiros têm vela (402)

os moliceiros têm vela (402)


falasse o barco

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

regata do emigrante; cais do bico; 2006

falasse o barco
casa sobre a ria
onde filhos feitos
criados entre barcadas
a correr pelos bordos
 
falasse o barco
dos homens e da palavra
do norte e das noites
das varas e das velas
da dura sirga
do ancinho e do moliço
do junco e da gadanha
da padiola do engaço
da forquilha
 
falasse o barco
diria da festa do s paio
da tenda de vela
das caldeiradas
as melancias o garrafão
os rojões as enguias fritas
 
falasse o barco
ouvirias os moliceiros
antigos senhores
da ria

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

regata do emigrante; cais do bico; 2006