postais da ria (131)


não merecem

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a alar a solheira

fizeram-se homens
ainda crianças
na escola dos barcos

fazem de cabeça
as contas
das malhas das redes

nunca têm nos bolsos
quanto baste
para poderem dizer

vou de férias

partem para longe
vão de viagem
em busca do pão
que a ria nega
o comprador não dá

sei deles o suficiente
para vos dizer

não merecem

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não ser de oiro a pescaria

(torreira)

crónicas da xávega (128)


são pescadores

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o chegar do saco

há quem deixe nome
obra e fama
herança quanto baste

há quem nada deixe
porque nada foi
no tanto de ter sido

oferecem o corpo
ao mar
vestem-se de vento
e areia

perdem-se à noite
por onde mais
ninguém senão eles

são ninguém
são gente
são pescadores

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há os que partiram, os que resistem e os que já não voltam

(torreira; companha do marco; 2009)

postais da ria (130)


o meu amigo carlos padeiro

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começa-se cedo aqui

aulas acabadas
abertas portas e janelas
a ria de novo

aqui onde
de água o chão
e infinito o tecto
os tempos são
de marés e sol

os olhos prendem-se
nas redes
onde peixe mais tarde

não é este o lugar
da palavra
por isso do carlos

escuto o silêncio

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férias da escola é na ria

(torrreira; porto de abrigo; 2010)

postais da ria (128)


cheio só de mim

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um a um os “andares” vão entrando na bateira

braço a braço
os dias
por entre os dedos
foram

olhos por dentro
dos olhos
estas memórias

queria a rede cheia
que de sonhos fora
para um dia te legar

mas nem isso

vou-me como vim
nu de tudo
cheio só de mim

ahcravo_DSC_3476_solheira_alar com o salvador chalana

nem sempre a rede salva o salvador, é assim a vida de pescador

(torreira; alar da solheira; 2010)

postais da ria (127)


regressarão

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depois do alar da solheira regressa-se, no balde o pescado (2010)

come-se à mesa
o que da ria
horas porfiadas
marés redes

conta-se o tempo
o ganho parco
no fundo do balde

parte-se porque
é fraco o ganho
para tanto
para tão pouco

vão-se os homens
e são senhores do mar
escravos da ria
terra sua de ser água

até quando pergunto
e só o silêncio
onde vozes por vezes
jamais o gesto

regressarão

ahcravo_DSC_3502_solheira_alar com o salvador chalana

a olhar o balde, o salvador faz as contas, e é tão pouco (2010)

(torreira; solheira; 2010)

sou tudo o que aqui encontras: vídeo do lançamento


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no dia 3 de setembro de 2015, foi o lançamento do livro “sou tudo o que aqui encontras” no monte branco café, na torreira.

apresentado pelo dr. diamantino moreira de matos e por mim, aqui fica o registo possível, mas integral, do acontecimento.