retrato com moliceiro em fundo

calam-se
existem não são
estão mas
sorriem muito
a todos
amanhã
serão lembrados
no registo
não na memória
dos seus
piquenos que são

(torreira; regata da ria; 2010)
retrato com moliceiro em fundo

calam-se
existem não são
estão mas
sorriem muito
a todos
amanhã
serão lembrados
no registo
não na memória
dos seus
piquenos que são

(torreira; regata da ria; 2010)
não merecem

a alar a solheira
fizeram-se homens
ainda crianças
na escola dos barcos
fazem de cabeça
as contas
das malhas das redes
nunca têm nos bolsos
quanto baste
para poderem dizer
vou de férias
partem para longe
vão de viagem
em busca do pão
que a ria nega
o comprador não dá
sei deles o suficiente
para vos dizer
não merecem

não ser de oiro a pescaria
(torreira)
são pescadores

o chegar do saco
há quem deixe nome
obra e fama
herança quanto baste
há quem nada deixe
porque nada foi
no tanto de ter sido
oferecem o corpo
ao mar
vestem-se de vento
e areia
perdem-se à noite
por onde mais
ninguém senão eles
são ninguém
são gente
são pescadores

há os que partiram, os que resistem e os que já não voltam
(torreira; companha do marco; 2009)
o meu amigo carlos padeiro

começa-se cedo aqui
aulas acabadas
abertas portas e janelas
a ria de novo
aqui onde
de água o chão
e infinito o tecto
os tempos são
de marés e sol
os olhos prendem-se
nas redes
onde peixe mais tarde
não é este o lugar
da palavra
por isso do carlos
escuto o silêncio

férias da escola é na ria
(torrreira; porto de abrigo; 2010)
poder escolher

decidir é saber ver
pudesse o pescador
escolher o mar
a ti
que podes escolher
digo-te que pescador
sejas
lê o longe e o perto
confia no que vês
só as penas flutuam
na espuma

esperar é sabedoria de pescador
(torreira; companha do marco, 2015)

cipriano brandão (gamelas)
o meu amigo cipriano

homem do mar e da ria, uma voz a ouvir
(torreira; porto de abrigo)

sem barco vão mar adentro
como ilhas
estes homens

chega a manga, agarra-se o calão
(torreira; companha do marco; 2015)
cheio só de mim

um a um os “andares” vão entrando na bateira
braço a braço
os dias
por entre os dedos
foram
olhos por dentro
dos olhos
estas memórias
queria a rede cheia
que de sonhos fora
para um dia te legar
mas nem isso
vou-me como vim
nu de tudo
cheio só de mim

nem sempre a rede salva o salvador, é assim a vida de pescador
(torreira; alar da solheira; 2010)
regressarão

depois do alar da solheira regressa-se, no balde o pescado (2010)
come-se à mesa
o que da ria
horas porfiadas
marés redes
conta-se o tempo
o ganho parco
no fundo do balde
parte-se porque
é fraco o ganho
para tanto
para tão pouco
vão-se os homens
e são senhores do mar
escravos da ria
terra sua de ser água
até quando pergunto
e só o silêncio
onde vozes por vezes
jamais o gesto
regressarão

a olhar o balde, o salvador faz as contas, e é tão pouco (2010)
(torreira; solheira; 2010)

no dia 3 de setembro de 2015, foi o lançamento do livro “sou tudo o que aqui encontras” no monte branco café, na torreira.
apresentado pelo dr. diamantino moreira de matos e por mim, aqui fica o registo possível, mas integral, do acontecimento.