a companha

albina amador
vergam-se os corpos
nestes caminhos de areia
dia após dia diversos
ser mulher aqui
é ser mais um
igual na diferença
dar tudo
como todos
ser camarada
na companha

(torreira; companha do marco; 2013)
a companha

albina amador
vergam-se os corpos
nestes caminhos de areia
dia após dia diversos
ser mulher aqui
é ser mais um
igual na diferença
dar tudo
como todos
ser camarada
na companha

(torreira; companha do marco; 2013)
um dia eu também

o “doroteia verónica” era assim
regressarei sempre
ao corpo
ao meu corpo ainda
esta coisa onde me
penduro
estendal de saberes
palavras sentires
por haver já
não muito para
uma folha caiu
levantou voo
ligeira uma ave
um dia eu também

um moliceiro é assim
(torreira; regata do s. paio; 2010)
há dias assim

a ceifa da ria
não morras já
deixa que as gaivinas
levantem voo
depois
depois parte

seara salgada esta
(torreira; apanha de ameijoa japónica)
da raiva

podem os homens
vencer o mar
ser o barco a casa
pode o mar calar
os homens
ouvir as mulheres
pode esta raiva
que trago no peito
salgar-me os olhos
enquanto pergunto
porquê
por muito pouco
que saibas do mar
saberás sempre
menos dos homens
fica a raiva a rugir
nas manhãs dos dias
breve anoitecidos
amarelecida espuma

(torreira; companha do marco; 2013)

8 de setembro é o dia de s. paio, padroeiro da torreira.
durante uma semana, uma das maiores romarias do país decorre na torreira, com a rua principal cheia de tendas as mais variadas, o parque de campismo cheio e tendas de campismo em terrenos cedidos por particulares.
gente, gente, gente…..
no mar as noites são de festa com todos os bares a funcionar em pleno e espectáculos na praia.
na ria, no fim de semana, sábado e domingo, decorrem 3 regatas:
– chinchorros (a remos)
– bateiras à vela
– moliceiros
o passeio da ria e o “cais do guedes” enchem-se de gente vinda de todo o país. a festa dos barcos é a grande festa desta terra de pescadores.
uma câmara de filmar, na bica da proa do “zé rito”, registou toda a regata e, mais do que isso, toda a actividade dentro do moliceiro que, em 2015, a venceu.
tripulação do moliceiro “zé rito” : mestre zé rito, manuel silva vieira e alfredo miranda
é mais uma memória de um tempo e uma homenagem aos homens que ainda têm a paixão da tradição do moliceiro e, por ele, sacrificam tempo de lazer e despendem as suas economias.
AOS MOLICEIROS, HOMENS E BARCOS!!!!!!!!!!!!!!!!!

os filhos do arrais marco silva, sérgio e ricardo
no dia 20 de junho de 2015, foi deitado à ria o moliceiro “Marco Silva”.
começado a construir em março pelo arrais marco silva e pelo mestre firmino tavares, com a ajuda dos filhos e amigos, o arrais marco silva voltava a ter um moliceiro.
depois da venda, há uns anos, do “Ricardo e Sérgio”, por não ter condições para a sua manutenção, o arrais voltava à ria com barco novo.
sem quaisquer apoios institucionais, como é costume em nome do défice, mas com muita “paixão” e solidariedade de todos, conseguiu.
deste momento importante da vida de ambos, homens e barco, não consegui registar o instante mais significativo do bota-abaixo: o baptismo e o deslizar pela rampa, tal era a aglomeração de gentes e repórteres e…. não menos importante, os meus parcos 1,65 metros de altura.
o bota-abaixo foi feito na marina de recreio da torreira, propriedade da associação naval da torreira, e o barco deslizou tão bem e reconheceu tão depressa a ria, que o arrais marco teve de nadar para ir ter com ele e assumir o lugar que lhe competia.
depois, o “Marco Silva” levou a bordo a companha de xávega do arrais marco, que esteve presente em todos os momentos do bota-abaixo, e alguns amigos.
de realçar o papel dos filhos sérgio e ricardo em todos os momentos da construção, aproveitando férias e fins de semana. se os barcos do arrais marco silva, têm os nomes dos seus familiares, verdade seja dita que sempre os tem a seu lado quando é preciso.
aqui fica o testemunho da realização de um sonho, do regresso do mestre firmino tavares à arte de construção naval, da força de uma família e da unidade de uma companha.
é esta a ria das solidariedades e dos HOMENS
da insónia

raiva de não escrever
de olhos fechados
as palavras que me assaltam
noite dentro e fogem
sem deixar mais
que a lembrança
de terem sido
tudo parecia tão claro

(torreira; o alar da solheira)
até um dia

o stalone agarra o calão e o ti américo desata o nó que prende a corda do arinque do reçoeiro
maiores que o mar
efémeros como a espuma
enterram na areia
os pés
espero os dias de sol
encharcados de sal
para os reencontrar
um dia

(torreira; companha do marco; 2012)
sem quaisquer pretensões fílmicas, apenas documentais, procurei registar os diferentes momentos de um lanço de xávega: largar, arribar e aparelhar.
o registo foi feito na praia da torreira, no dia 30 de agosto de 2015, com a companha do arrais marco silva e no barco de mar de mar “maria de fátima”
procedimentos no mar:
– largar o reçoeiro
– largar o arinque do calão do reçoeiro
– largar a manga do reçoeiro
– largar o saco e a calima ou calime
– largar a manga da mão de barca
– largar o arinque do calão da mão de barca
– largar a mão de barca
no arribar notar o modo como o arrais enrola cala da mão de barca na bica da ré, para segurar o barco enquanto espera a onda, ou as ondas, que o hão-de levar a terra “surfando”.
procedimentos no aparelhar:
– a rede fica entre o paral (antepara) do motor e o primeiro traste (traste da ré)
– a cala do reçoeiro fica por cima da rede
– a cala da mão de barca fica debaixo do paneiro da proa até ao traste da proa
– o saco dá a volta ao barco pela ré e assenta no paneiro da proa
sequência:
– manga da mão de barca
– saco
– manga do reçoeiro
– cala do reçoeiro
em paralelo: cala da mão de barca
cada camarada sabe qual a tarefa que lhe cabe em cada um destes momentos e todos funcionam como uma companha.
sem tempo

no meu é que era
tudo tem o seu
foi mesmo a
falta-me sempre
não sei se chega a
já não era sem
veio fora de
tanto sem te ver
estou a matar o
acabou-se o

(torreira; regata da bateiras à vela; s. paio; 2012)