a beleza do sal (78)


palavras salgadas

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guardas em arcas as palavras
em sal
à moda antiga de antes de ti
mas o sal não conserva as palavras
digo-te eu que de outro tempo
um dia lembrar-te-ás das palavras
guardadas
das que não disseste
do silêncio
irás à arca em sua busca
pensando usá-las
mas não terás o destinatário
para quem as guardaste
se as guardaste
o tempo corrói tudo
até o presente
que não usaste
e então
talvez seja sal o que
pelo rosto te escorre
sal nada mais
sem palavras
a temperar o silêncio
o não dito
(armazéns de lavos; mexer; 2019)

poesia de sempre e para sempre


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Luís Machado encerrou a exposição “Escritores, Memórias e Olhares” de Fernando Bento, com um recital de poesia
 
A exposição de fotografia de Fernando Bento “Escritores, Memórias e Olhares”, patente na sala 3 do Centro de Artes e Espectáculos desde 8 de novembro de 2019, constituída por 25 fotografias a preto e branco de diversos escritores nacionais, encerra ao público dia 02 de fevereiro com a realização do recital “Poesia de Sempre para Sempre”.
 
O recital realizou-se pelas 15h30, no Auditório Municipal, dinamizado pelo escritor Luís Machado, secretário-geral da Associação Portuguesa de Escritores e curador da exposição.
 
A iniciativa contará também com a participação de Rui de Matos, que fará o acompanhamento musical da declamação dos poemas, da autoria de Fernando Pessoa e de outros grandes nomes da literatura portuguesa.
 
Sobre a exposição
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Fotografia de Fernando Bento
 
“Estes rostos de escritores, propostos por Fernando Bento, suscitam um encadear de ideias e até um eternizar de memórias. Por trás de uma fisionomia humana há sempre uma história e uma memória. Se pensarmos assim, percebemos que o fotógrafo de que falamos não se limita a fixar e a reproduzir imagens. Ele capta, para além da máscara, a expressão dos gestos, revelando sentimentos e identificando emoções.”
 
(informação retirada da página do município da figueira da foz)
o registo

memórias da minha coimbra (VIII)


o kim dos ossos
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coimbra; praça do comércio; 2009

o tempo da fast food ainda não tinha chegado a coimbra. a tasca do quim, como era conhecida, era famosa pelos ossos de espinhaço de porco cozidos e condimentados à moda do quim.
foi a última tasca de coimbra. tinha duas portas de entrada: a da esquerda dava para a mercearia e da direita, uma porta de duas folhas de vai e vem, levava-nos para o interior da tasca. meia dúzia de mesas, os pipos de encostados à parede com as torneiras prontas a debitar.
começava-se normalmente com uns cricos (berbigões) abertos à quim e depois continuava-se com os famosos ossos e outros petiscos. cada um servia-se do vinho dos barris que ficavam atrás da mesa e ia marcando com um traço cada copo que bebia.
no fim éramos nós, ainda somos apesar de já não ser tasca, que dizíamos o que tínhamos consumido e assim nascia a conta.
quantas noites de violas e guitarras e poesia …..
na tasca do quim não se cantava fado de coimbra, cantava-se zeca afonso, adriano, fado de lisboa e dizia-se poesia.
conviviam estudantes, trabalhadores, licenciados…. era um sitio à parte na cena coimbrã.
encastrada na parede exterior havia uma pedra que servia de banco para duas pessoas, um belo dia sentei-me ao lado de um velhote que, pensativo, seguia com os olhos as jovens estudantes que passavam. de repente volta-se para mim e diz:
– sabe o que me custa? um gajo envelhece e elas continuam a passar sempre novas.
era assim que se aprendia a estar vivo na tasca do quim

memórias da minha coimbra (VII)


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coimbra; praça 8 de maio; a adelaide; 2014

o pinto e vítor gordo
 
 
o tropical é um café da praça da república que faz esquina mas, como a esquina estava a mais, cortaram-na. ficou um recanto acolhedor, no interior, para uma mesa, uma janela sobre a rua e, no exterior, um pequeno poial que servia de assento em dias de sol.
 
era nesse poial que eu, o pinto e vítor nos sentávamos a conversar e a apanhar um pouco de sol.
 
uma das características de coimbra é o modo como os estudantes habitam a cidade: quartos alugados, repúblicas, solares….. havia, porém, uma que era diferente, a “comuna dos galifões”, habitada fundamentalmente pelo núcleo anarquista de coimbra, na maioria rapazes bem constituídos.
 
o pinto e o vítor viviam na comuna, eram praticantes de halterofilismo e senhores de uma envergadura física de invejar. eu, com o meu 1,65m, podia bem sentar-me à sombra deles. e era isso mesmo que acontecia:
 
28 de setembro
 
– cravo, temos de ir ao josé falcão alertar a malta
– oh pá, aquilo é um ambiente tramado
– não faz mal, tu falas e nós guardamos-te costas
 
candidatura do otelo
 
– cravo, vamos fazer umas sessões de esclarecimento aqui à volta
– cuidado, vocês sabem onde nos vamos meter?
– não faz mal, tu falas e nós guardamos-te as costas
 
era sempre assim, um maoista e dois anarquistas. coimbra tem destas coisas.
 
quando acabaram o 6º ano de medicina, pediram um carro emprestado a um amigo e resolveram ir celebrar para a figueira da foz. a falta de hábito de conduzir – nessa época estudante com carro era bicho raro – o ser de noite quando saíram, uma curva traiçoeira na passagem de nível das alhadas….. e o despiste foi-lhes fatal.
 
dentro de renault 5, iam quatro. o carro incendiou-se e, segundo alguns, ainda se ouviram os gritos dos ocupantes, aprisionados dentro do carro.
 
quando o cortejo fúnebre passou em frente aos “galifões” eu estava ao lado do soveral martins, de punho erguido – caíam-nos lágrimas pelo rosto.
 
nestas memórias dei nota de alguns dos meus melhores amigos e de como sem eles coimbra para mim, já pouco tem de interesse.

francisco josé viegas nas quintas de leitura


“A Biblioteca Municipal Pedro Fernandes Tomás recebeu, dia 20 de fevereiro, pelas 21h30, mais uma sessão do projeto de promoção e incentivo à leitura «5as de Leitura», que terá como convidado o escritor, jornalista e editor, Francisco José Viegas, que vem apresentar a sua mais recente obra «A Luz de Pequim» e conversar com o público sobre a sua vida e obra literárias.
 
«A Luz de Pequim» é “um policial brilhante onde o autor grava o seu olhar ácido sobre a ascensão ao poder dos incompetentes e o vazio de valores”. Neste “romance denso e crepuscular”, os leitores vão poder mergulhar nas novas páginas do inspetor Jaime Ramos, que “já se tomou um clássico no quase inexistente género do policial português”.
 
Bio
 
Francisco José Viegas nasceu em 1962. Professor, jornalista e editor, é responsável pela revista Ler e foi também diretor da revista Grande Reportagem e da Casa Fernando Pessoa. De junho de 2011 a outubro de 2012 exerceu o cargo de Secretário de Estado da Cultura.
 
Colaborou em vários jornais e revistas, e foi autor de vários programas na rádio (TSF e Antena Um) e televisão (Livro Aberto, Escrita em Dia, Ler para Crer, Primeira Página, Avenida Brasil, Prazeres, Um Café no Majestic, A Torto e a Direito, Nada de Cultura). Da sua obra destacam-se livros de poesia (Metade da Vida, O Puro e o Impuro, Se Me Comovesse o Amor) e os romances Regresso por um Rio, Crime em Ponta Delgada, Morte no Estádio, As Duas Águas do Mar, Um Céu Demasiado Azul, Um Crime na Exposição, Um Crime Capital, Lourenço Marques, Longe de Manaus (Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores 2005), O Mar em Casablanca, O Colecionador de Erva, A Poeira que Cai sobre a Terra e Outras Histórias de Jaime Ramos e A Luz de Pequim.
 
 
do evento fica o registo possível

memórias da minha coimbra (V)


(alfredo) soveral martins
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coimbra; praça do comércio; 2008

 
a muitos dos que se darão ao trabalho de ler o que se segue este nome nada dirá.
 
a alguns, os mais calejados pelos anos, o nome “centelha” talvez os remeta para quando tinham pouco mais de 20 anos, ou pouco menos, quem sabe?
 
em 1971, chegado de luanda a fugir de perigos vários, continuo os meus estudos no técnico, e a aventura era comprar os livros proibidos pelo regime, nas bancas da associação de estudantes.
 
aí encontrávamos a preços de estudante uns livros pequenos, com obras de marx, lenine e outros, bem como a poesia de manuel alegre a assis pecheco, entre outros, de uma editora de coimbra chamada “centelha”.
 
(a primeira edição de “praça da canção” e a segunda de “o canto e as armas” foi a centelha que as fez.
 
lembras-te do início, manel? )
 
centelha em russo é “iskra”, nome do jornal do pcus.
 
mal imaginava eu, nessa altura, que viria a ser amigo e, um pouco, companheiro do responsável pela editora.
 
já em coimbra, onde cheguei em 1973, conheci o alfredo soveral martins. marginal dos marginais, não era homem de tertúlias, tinha muito que fazer, dizia, e não podia perder tempo em conversas de café.
 
o seu escritório de advogado, que o era para além de assistente da cadeira de “processo civil” na fduc, era também a sede da centelha, o escritório da centelha…. era a centelha.
 
um homem com uma capacidade de trabalho extraordinária.
 
as reuniões da centelha, de que guardo religiosamente o recibo da minha quota de sócio, eram dominadas pelo seu discurso sempre calmo, em voz baixa, com exposições que podiam demorar, mais de meia hora, em que expunha ao detalhe e com uma lógica irrebatível o seu ponto de vista sobre o assunto em análise.
 
colaborei na montagem da livraria e numa ou outra distribuição pela província.
 
o soveral martins foi das personagens que maior influência teve na formação ideológica de muitos estudantes, de entre os quais alguns, mais tarde, viriam a desempenhar funções de relevo na vida política portuguesa.
 
dele, dele ficou uma campa em chãs de semide, marginal como ele.
 
dele fica aqui um testemunho, também marginal, mas despretensioso.
 
ao mestre pede-se licença e agradece-se.