sem tempo

no meu é que era
tudo tem o seu
foi mesmo a
falta-me sempre
não sei se chega a
já não era sem
veio fora de
tanto sem te ver
estou a matar o
acabou-se o

(torreira; regata da bateiras à vela; s. paio; 2012)
sem tempo

no meu é que era
tudo tem o seu
foi mesmo a
falta-me sempre
não sei se chega a
já não era sem
veio fora de
tanto sem te ver
estou a matar o
acabou-se o

(torreira; regata da bateiras à vela; s. paio; 2012)
contar porquê

quantos anos? não os contei (o carregar das redes para secarem ao sol)
começa um ano
continua o tempo
por sobre a areia
nem pegadas
que o vento
das gentes pó
a areia o mar
a memória
fica o retrato a falar
do que perdi a conta
tempo houve em que
era assim
ainda é ainda é ainda
não conto nada
registo o que posso
(torreira; século XX)
UM BOM ANO DE 2016
sobreviver

o moliceiro “dos netos” do ti abílio carteirista
de velas pandas os dias
seguiram o seu caminho
barcos ante nossos olhos
espanto de ainda por cá
resistir teimoso à chamada
espantoso o ser ainda
um moliceiro voga na ria
quero deixar-vos um ror deles
a encher-vos os olhos
nada mais vos peço que
sonheis com muita força
só assim os moliceiros hão-de
sobreviver

a bandeira da pátria dos moliceiros
(murtosa; regata do bico; 2007)
eu só só eu

foram-se os dias
foram-se amigos
laços afectos
pedaços de mim
semeados
arrancados
fui-me sendo por aí
mais um mais um
menos que nada
menos que eu
menos
eu só
só eu

(torreira; corrida dos chinchorros; 2014)
o desempenho do blog, visto pelo wordpress
interessante o suficiente para guardar e analisar
https://ahcravo.com/2015/annual-report/
o mar e eu

o ti américo e o massa, ao fundo
olho o mar e penso
aqueles que te não conhecem
se te soubessem
fico assim dentro de mim
a inventar ondas gaivotas
um barco e os meus amigos
o mar é uma casa imensa

homens de mar
(torreira; companha do marco; 2011)
dos mestres
na precisão do gesto
a mão o instrumento
o mestre
saberes herdados
na escrita dos dias
trabalhados
vai-se o mestre
fica a obra
diziam
já pouca obra
enquanto nenhuma
digo
é este o meu tempo
(torreira; 2015)

mestre firmino tavares a trabalhar com o formão na construção do moliceiro marco silva
ser mestre, não é só o que hoje se diz dos que obtiveram numa universidade esse grau, é coisa muito mais antiga. de saberes de artes e ofícios, de aprendizagens de anos, de carreiras feitas sob a orientação de um “mestre”, até se atingir a qualidade e a perfeição de execução que aos mestres são exigíveis.
não é tradição dos países do sul da europa este tipo de formação e aquisição de saberes e títulos, que remontam à idade média, mas que se continuam a utilizar em muitos países europeus, começando na frança, o país mais a sul. as antigas escolas industriais preenchiam, entre nós, esta função e nelas se formavam operários especializados que recebiam ensinamentos práticos dos “mestres de oficina”.
enfim, toda uma conversa que haveria/haverá que fazer sobre este tema, mas o que agora e aqui importa é ouver “mestre” firmino tavares, último de uma família de mestres construtores navais de pardilhó, e aprender com ele o como foi, o prazer de ter sido e de ensinar a fazer, fazendo.
falar com o mestre são lições de vida que não me canso de receber. espero que depois de ouvir este breve apontamento, sem pretensões, fiquem mais ricos, como eu fiquei
quentes e …. (4)

modernidade e tradição, a convivência
comprei um papagaio
veio com um poleiro
e comida bastante
pu-lo na varanda
é o dono da terra

se quisermos é um cenário sempre possível
(torreira; regata da ria; 2010)
ao pescador da torreira

reparar as redes da solheira
far-te-ás no tempo
desfazendo o que de ti
fizeram
afirmar-te-ás negando
que todo o fim
é negação de início
seres tu é tarefa
em que não podes estar só
a companhia surgirá quando
de velhas companhias livre fores
és mestre do incerto
senhor do saber esperar
por isso te digo
não
não tens o que mereces
nem ninguém te oferecerá
o teu futuro

as horas que fazem o dia são poucas
(torreira, porto de abrigo dos pescadores)
prefiro a carne ao peixe

a compnha espera
aqui longe sei que
é esta a gente que se ajoelha
perante um deus invisível
e não se curva diante do mar
a névoa cobriu tudo e adivinhar
o mar não é arte é loucura
nestes momentos oiço-os dizer
prefiro a carne ao peixe

como se inverno em agosto
(torreira; companha do marco; 2014)