para os que longe

dói-me o que sei
e não vejo
falo da saudade

(murtosa; regata do bico; 2008)
para os que longe

dói-me o que sei
e não vejo
falo da saudade

(murtosa; regata do bico; 2008)

os filhos do arrais marco silva, sérgio e ricardo
no dia 20 de junho de 2015, foi deitado à ria o moliceiro “Marco Silva”.
começado a construir em março pelo arrais marco silva e pelo mestre firmino tavares, com a ajuda dos filhos e amigos, o arrais marco silva voltava a ter um moliceiro.
depois da venda, há uns anos, do “Ricardo e Sérgio”, por não ter condições para a sua manutenção, o arrais voltava à ria com barco novo.
sem quaisquer apoios institucionais, como é costume em nome do défice, mas com muita “paixão” e solidariedade de todos, conseguiu.
deste momento importante da vida de ambos, homens e barco, não consegui registar o instante mais significativo do bota-abaixo: o baptismo e o deslizar pela rampa, tal era a aglomeração de gentes e repórteres e…. não menos importante, os meus parcos 1,65 metros de altura.
o bota-abaixo foi feito na marina de recreio da torreira, propriedade da associação naval da torreira, e o barco deslizou tão bem e reconheceu tão depressa a ria, que o arrais marco teve de nadar para ir ter com ele e assumir o lugar que lhe competia.
depois, o “Marco Silva” levou a bordo a companha de xávega do arrais marco, que esteve presente em todos os momentos do bota-abaixo, e alguns amigos.
de realçar o papel dos filhos sérgio e ricardo em todos os momentos da construção, aproveitando férias e fins de semana. se os barcos do arrais marco silva, têm os nomes dos seus familiares, verdade seja dita que sempre os tem a seu lado quando é preciso.
aqui fica o testemunho da realização de um sonho, do regresso do mestre firmino tavares à arte de construção naval, da força de uma família e da unidade de uma companha.
é esta a ria das solidariedades e dos HOMENS
da insónia

raiva de não escrever
de olhos fechados
as palavras que me assaltam
noite dentro e fogem
sem deixar mais
que a lembrança
de terem sido
tudo parecia tão claro

(torreira; o alar da solheira)
até um dia

o stalone agarra o calão e o ti américo desata o nó que prende a corda do arinque do reçoeiro
maiores que o mar
efémeros como a espuma
enterram na areia
os pés
espero os dias de sol
encharcados de sal
para os reencontrar
um dia

(torreira; companha do marco; 2012)
sem quaisquer pretensões fílmicas, apenas documentais, procurei registar os diferentes momentos de um lanço de xávega: largar, arribar e aparelhar.
o registo foi feito na praia da torreira, no dia 30 de agosto de 2015, com a companha do arrais marco silva e no barco de mar de mar “maria de fátima”
procedimentos no mar:
– largar o reçoeiro
– largar o arinque do calão do reçoeiro
– largar a manga do reçoeiro
– largar o saco e a calima ou calime
– largar a manga da mão de barca
– largar o arinque do calão da mão de barca
– largar a mão de barca
no arribar notar o modo como o arrais enrola cala da mão de barca na bica da ré, para segurar o barco enquanto espera a onda, ou as ondas, que o hão-de levar a terra “surfando”.
procedimentos no aparelhar:
– a rede fica entre o paral (antepara) do motor e o primeiro traste (traste da ré)
– a cala do reçoeiro fica por cima da rede
– a cala da mão de barca fica debaixo do paneiro da proa até ao traste da proa
– o saco dá a volta ao barco pela ré e assenta no paneiro da proa
sequência:
– manga da mão de barca
– saco
– manga do reçoeiro
– cala do reçoeiro
em paralelo: cala da mão de barca
cada camarada sabe qual a tarefa que lhe cabe em cada um destes momentos e todos funcionam como uma companha.
mensagem de ano novo
(aos donos da pátria dos moliceiros)

tão pouco fazem
depois de tanto terem dito
que chego a pensar que são
outros neles

o moliceiro “alfredo rebelo”
(murtosa, regata do bico; 2006)
sem tempo

no meu é que era
tudo tem o seu
foi mesmo a
falta-me sempre
não sei se chega a
já não era sem
veio fora de
tanto sem te ver
estou a matar o
acabou-se o

(torreira; regata da bateiras à vela; s. paio; 2012)
contar porquê

quantos anos? não os contei (o carregar das redes para secarem ao sol)
começa um ano
continua o tempo
por sobre a areia
nem pegadas
que o vento
das gentes pó
a areia o mar
a memória
fica o retrato a falar
do que perdi a conta
tempo houve em que
era assim
ainda é ainda é ainda
não conto nada
registo o que posso
(torreira; século XX)
UM BOM ANO DE 2016
sobreviver

o moliceiro “dos netos” do ti abílio carteirista
de velas pandas os dias
seguiram o seu caminho
barcos ante nossos olhos
espanto de ainda por cá
resistir teimoso à chamada
espantoso o ser ainda
um moliceiro voga na ria
quero deixar-vos um ror deles
a encher-vos os olhos
nada mais vos peço que
sonheis com muita força
só assim os moliceiros hão-de
sobreviver

a bandeira da pátria dos moliceiros
(murtosa; regata do bico; 2007)
eu só só eu

foram-se os dias
foram-se amigos
laços afectos
pedaços de mim
semeados
arrancados
fui-me sendo por aí
mais um mais um
menos que nada
menos que eu
menos
eu só
só eu

(torreira; corrida dos chinchorros; 2014)