(re)começar

o arribar da mão de barca
depois de mim
tudo continuará
porque não
começar já o depois?
(costa de lavos; companha do armando; 2017)
(re)começar

o arribar da mão de barca
depois de mim
tudo continuará
porque não
começar já o depois?
(costa de lavos; companha do armando; 2017)

Rui Miguel Fragas, pseudónimo de António Rui Féteira, nasceu em 1964, em S. Miguel de Poiares (Coimbra). Licenciou-se em filosofia na Universidade de Coimbra. publicou alguns poemas e contos nas revistas Alma Azul e Aeroplano. tem três livros de poesia publicados: ” O Nome das Árvores” (Poética Edições, 2014), “Não sei se o Vento” (Poética Edições, 2015) e “O Rumor das Máquinas” (UA Editora, Universidade de Aveiro, IV Prémio Literário Aldónio Gomes, 2015). Participou na antologia “As Vozes do Isaque”«, Derivações Poéticas a partir da obra “O Último Poeta” (Poética Edições, 2016). Em 2017 venceu a VII edição do concurso Poesia na Bibilioteca, Condeixa-a-Nova, com o poema “O cão de Pavese”.
*
O mundo está reduzido a cinzas, soluçou uma das mulheres, ao sue lado. Ardeu o mundo inteiro no meio do borralho arde agora a memória de tudo quanto ardeu. Nada disso, ripostou o coveiro. DE acordo com o que vem escrito na bíblia, ardeu, quanto muito, uma terça parte da terra e uma terça parte das árvores e uma terça parte dos homens. Quanto a nós, que é o que interessa, estamos vivos. E para quê, suspirou a mulher num fio quebrado de voz.
(da badana do livro)
da apresentação do livro de contos “A ÚLTIMA RODADA“, feita na biblioteca municipal da figueira da foz e promovida pelo clube de leitores, aqui fica o registo possível.
(obrigado amigo Santos Silva pelo registo)
a dança das redes (8)
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
(torreira; 2017)

há registos difíceis de fazer, há outros que nunca imaginámos conseguir fazer, este é um deles.
o joão da calada, amigo de há quase 30 anos, veste bem a alcunha da família, é difícil ouvi-lo falar para uma gravação ou deixar-se fixar numa fotografia. a forma como acedeu a ser filmado é, por si só, outro filme.
foi o arrais da primeira companha que acompanhei, é o meu consultor quando tenho dúvidas – nunca deixou de atender o telefone e dar-me o esclarecimento que pretendia.
é o meu arrais e …. desta vez deixou-me fazer o filme possível e as fotos que nunca pensei conseguir fazer. não são os ideais, mas para mim, são um abraço, o maior abraço que o meu arrais me deu.
bem hajas joão da calada.
(torreira; 13 de junho de 2017)

o A. Rendeiro já claramente em 1º lugar
Participantes
Barcos moliceiros classe A – tamanho tradicional
A. Rendeiro
Marco Silva
Um Sonho
Zé Rito
O Amador
Bulhas
S. Salvador
Dos Netos
Câmara Municipal da Murtosa
Barcos moliceiros classe B – mais pequenos
Ecomoliceiro
Sermar
(ao todo 11 barcos)
Classificação e prémios de regata
Classe A
1º – A. Rendeiro – 150 euros
2º – Marco Silva – 100 euros
3º- Um Sonho – 50 euros
Classe B
1º – Ecomoliceiro – 150 euros
2º – Sermar – 100 euros
Classificação e prémios de painéis ( só classe A)
1º – A. Rendeiro – 300 euros
2º – Marco Silva – 250 euros
3º- Bulhas – 200 euros
4º – Zé Rito – 150 euros
5º – O Amador – 100 euros
Algumas contas
Prémio de participação : 700 euros ( 9 classe A). Total 6.300 euros
Prémio de participação : 600 euros (2 classe B). Total 1.200 euros
Prémios de classificação: 300 euros ( classe A) ; 250 euros (classe B)
Prémio de painéis : 1.000 euros
Total do valor entregue aos moliceiros: 6.300+1.200+300+250+1.000 = 9.050 euros
E, agora, pensemos um pouco
Nos últimos anos a transferência da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro – para a comissão organizadora da regata da ria – tem sido de cerca de 17.000 euros, e este ano terá sido, pelo menos, o mesmo.
A questão em que eu gostava que meditassem é:
11 MOLICEIROS PARTICIPARAM NA REGATA E RECEBERAM 9.050 EUROS.
PARA ONDE FOI O RESTANTE??????????????
A BRINCAR, A BRINCAR PODEMOS ESTAR A FALAR DE CERCA DE 8.000 EUROS
Assim sendo, apetece perguntar
QUEM GANHA COM A REGATA DA RIA?
OS MOLICEIROS NÃO, DE CERTEZA!
SERÁ QUE NINGUÉM MOSTRA AS CONTAS?

os 3 primeiros na recta final da regata
” – ti zé, quando é que podemos gravar ?
– oh cravo, agora estou sozinho, mas pode ser segunda-feira pelas 6 da tarde”
foi assim e na segunda-feira, dia 12 de junho de 2017, nos juntámos na cozinha do ti zé rebeço e fizemos a gravação a que assistiram..
houve estórias para além de haver bateria que a memória é rara, as vivências muitas e o homem enorme.
memória de um tempo, de uma geração, de uma ria que já não volta mas importa celebrar e, porque não, reviver.
obrigado ti zé, há momentos em que vale a pena estar vivo, estes foram momentos em que valeu a pena.
(depois de ouvir a história de vida do ti zé rebeço)

eis o homem
sejam nele todos quantos
antes muito antes
araram e ceifaram a ria
límpidas e puras as palavras
como então as águas
que sulcavam a bordo dos seus barcos
homens sem nome sem rosto
moliceiros desconhecidos
a quem a terra que adubaram
que a tantos deu de comer
ainda lembra mas não recorda
ao moliceiro desconhecido
na terra que o viu nascer
tudo mas tudo lhe é devido
tarda a hora de o fazer

(o ti zé rebeço revive a descarga com moliço, no cais do bico)
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
caminhos de areia

de praia em praia
outros os homens
a mesma arte
diversos os fazeres
percorro caminhos de areia
olhos postos nos homens
e no mar
sempre no mar
encontro homens
barcos redes
sal suor peixe
vou por aí
mas vou sempre sempre
para o mar
(torreira; 2016)
torreira; 2017