como caem as árvores


0 ahcravo_DSC_3723

1. ouvi o barulho da serra. levantei-me. vesti-me. peguei na máquina. aproximei-me e comecei a fotografar. que não podia. que tinha de sair. que me tiravam a máquina. semblantes carregados. rostos fechados. cercas encerradas de imediato.

afinal, só estavam a abater 3 árvores. só isso. porquê o medo? porquê? o que é que estava a fazer?

2. voltei mais tarde. de longe. equipado. fica o registo

0 ahcravo_DSC_3723 bw

3.

a ordem

o homem
a mão
a serra

a ferida
o esticão
a morte

as árvores
dormem nas nuvens
os homens
quando acordarão?

crónicas da xávega (207)


a memória

0 ahcravo_DSC_0998

o carregar do saco seco na zorra

a memória escreve-se
na areia e vai com o vento

não há malhas que a prendam
e tudo flui somando-se dias aos dias
assim sempre mesmo já quando

saber-lhes os nomes hoje ainda
é mistério que não entendo

aceito
como aceitarei
o não os saber

sei que o tempo
corre numa praia
por onde passo
e já tanto passei

olho tudo com a sensação
de que estive onde estive
sempre de corpo inteiro

assim como não estarei

(torreira; 2016)

apelo de uma árvore


0 ahcravo_DSC_3703

aqui onde me vês
cresci para as nuvens
e para a terra
sou mais que ninguém
d’aqui

não tenho pernas
tenho raízes fundas
que me prendem

não tenho corpo
tenho tronco que te abriga
não tenho braços nem dedos
tenho ramos e folhas
que te fazem sombra
e te protegem da chuva mansa

não falo
não reclamo
não grito

espero que tu
que tens pernas braços dedos
e voz sejas agora
o que eu para ti fui

o abrigo
a defesa
o amigo

aqui
na rua joaquim sottomayor
onde marcaram quatro irmãs
para serem abatidas

não os deixes

0 ahcravo_DSC_3703 bw

(figueira da foz; 21 de julho, 2017)

os moliceiros têm vela (268)


frema

0 ahcravo_DSC_6863 bw

palavra da terra
das gentes
do serem dela
cheios alguns

deixo a frema
para que falem dela
e vejam
no homem a frema
de ser
e só assim continuar

o que é a frema
pergunto-vos

0 ahcravo_DSC_6863

(torreira; regata do s. paio; 2016)

o filme continua com

“o tempo do moliço”

 

marcadas para abater


0 ahcravo_DSC_3659

junto à esquina norte, antes dos semáforos

“vamos alargar a rua e, não vê, estão velhas”

e foi assim, hoje de manhã, que um funcionário respondeu, quando lhe foi perguntado se as árvores que estavam a marcar eram para abater.

sim, são para abater!

sim estão marcadas!

sim são árvores, árvores em plena cidade, certamente mais velhas que o funcionário de velho pensar.

proteger as árvores, com certeza! agora as nossas, no meio da cidade…. são para arrancar.

já arrancaram as mais jovens, chegou a vez das “mais velhas”.

assim vamos por cá

0 ahcravo_DSC_3659 bw

(figueira da foz, 20 de julho, 2017)

todas as quatro árvores estão marcadas com uma cruz pintada a branco, para que quem venha saiba que ….. são para abater

parabéns ti abílio carteirista


parabéns ti abílio

0 ahcravo_DSC_7731 s bwa

eis o homem da beira-ria, chama-se abílio carteirista

será que este ano são mesmo os 80? ou foi o ano passado?

quem conhece o ti abílio (carteirista) sabe bem que com ele tudo é possível.

eu acredito que este ano são mesmo 80 anos.

fala-se muito da “brejeirice da beira-ria” quando se analisam alguns painéis de moliceiros, mas só se sabe o que é a “brejeirice da beira-ria” depois de alguns momentos de convívio com o ti abílio.

fala-se do “duplo sentido” que algumas legendas de painéis de moliceiros utilizam, veja-se a alcunha “carteirista” e pensa-se logo numa interpretação, mas …… (vejam o vídeo)

o ti abílio tem também da tradição dos homens da beira-ria, no saber o valor da palavra e no reconhecer os amigos – é o que somos.

o ti abílio é a beira-ria

parabéns ti abílio, seja qual for a idade que você comemora hoje, nunca parecerá a que é.

abraço do amigo cravo

(os clips de vídeo, que registei em conversa com o ti abílio, mostram um ti abílio sério, de boa memória, muita experiência de vida e capaz de encarar o futuro com um discernimento que incomodará muitos de menos idade.
hoje o primeiro da série)

mãos de mar (23)


de tanto dares

0 ahcravo_DSC_2693 armando 2017

de tanto dares
a mão
ficaste sem ela

deste porque sim
receberam porque também

não esperes mão
da mão a quem mão deste
o que foi dado
esgotou-se no acto primeiro

mão a mão
enchem muitos o papo
isso te digo

coisas de galinhas
ou galos de capoeira

(costa de lavos; companha do armando; 2017)