terra d’água

a espera sem vento
escreveis na água
o nome da terra
tendes nas mãos
o passado
prenhe de futuro
não o deixareis cair
sei e sinto
terra d’água
a vossa

já lá vão 10 anos ….
(regata do bico; 2007)
terra d’água

a espera sem vento
escreveis na água
o nome da terra
tendes nas mãos
o passado
prenhe de futuro
não o deixareis cair
sei e sinto
terra d’água
a vossa

já lá vão 10 anos ….
(regata do bico; 2007)
abraçar o vazio

o agostinho trabalhito (canhoto) e o ti augusto
estar vivo é
por vezes
abraçar o vazio
(torreira; 2013)
mesmo se longe

o salvador belo e a ciranda de um
mais que os barcos
mais que a ria
mais que a beleza
que em tudo respira
os homens as mulheres
os que vivem os dias
sem saber de horas
férias feriados
que só sabem
de encomendas
de interdições
de marés
do que por vezes
não sabem por quanto
falo dos meus amigos
e do respeito
que por eles tenho
mesmo se longe

é duro, é muito duro
(torreira; cirandar)
desencontro

a escolha
a mão que deste
a mão que te deram
da ignorância e da sabedoria

o carlos arato safa as redes da solheira
há os que não sabem
e não sabem que não sabem
e os que não sabem
porque não querem saber
respeito tanto os primeiros
como desprezo os segundos
indiferente a estas palavras
o homem cumpre a sua tarefa diária
de subsistir onde cada dia
é mais difícil
olho tudo como se estivesse
sabendo que nunca mais
estarei como estive
essa é a minha sabedoria

o carlos arato safa as redes da solheira
(torreira; 2016)
haver mar

arribar
sê em cada dia
amigo do amigo
deixa que seja o tempo
esse outro amigo mais íntimo
a dizer-te quando acabou
o que parecia ter sido
não cuides do que poderia ser
lembra o que foi
procura outros rumos
noutras praias
há outra gente
com o mesmo destino
ser homem
e
haver mar

é tudo muito rápido e perigoso
(arribar; torreira; 2013)
a memória das imagens

o “A. Rendeiro” do ti zé rebeço a caminho da meta
são o que são
e não querem mais
amam o que amam
e fazem porque
une-nos o abraço o gesto
o sermos simples
como a palavra
que aprendemos sagrada
fiquem para outros os palcos
homens simples
outra arte não têm
senão a de saberem
que entre eles e o barco
só a morte ou falta de dinheiro
se pode interpor
vou com eles em busca
de um futuro possível
mensageiros que são
de uma tradição secular
e ter eu uma máquina
que dispara uma bala para muitos
desconhecida ou ignorada
a memória das imagens

quando três são um
(torreira; regata da ria; 2010)
o real no virtual

amanhã
quando falarem de mim
ou me esquecerem
como é normal
que fiquem estas imagens
de um tempo
de uma gente
de um modo de vida
a minha memória
será então
não um nome
mas o que ficou
espalhado
nas redes sociais
num mundo virtual
onde o real resiste
sem fronteiras
(torreira; 2016)
para o meu amigo
vitor cacheira

só vai ao mar
quem quer
só volta do mar
quem sabe
ou
consegue

(torreira; 2016)
urgente

ao longe
muito ao longe
a memória
algures um barco
dentro dele um homem
o homem-barco
urgente unir os que
são a memória perto
desse tempo longe
não muito ainda
dar-lhes as mãos
de que carecem
para que um dia
não se escreva
não se possa dizer
ao longe
muito ao longe
havia um barco
dentro dele um homem
um homem-barco
eu

(regata do s. paio; 2016)