envelope

há quem se sonhe carta
quisera-me eu envelope
e é tanto
se o conseguir

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2014)
envelope

há quem se sonhe carta
quisera-me eu envelope
e é tanto
se o conseguir

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2014)
só

2009, a muleta tradicional
sou
o que se foi fazendo
os princípios sempre
as pedras e os afagos também
não o outro o que gostariam
que apesar tudo
continuasse
a ser
o que me dói ser assim
o ter chegado ao que sou
eu por dentro e por fora de mim
escrevo-o com lágrimas
e raiva raiva raiva raiva
um dia vou acordar nunca
para ser eu
só

com o tempo muito se altera, as coisas e as pessoas. já lá vão 7 anos
(torreira; companha do marco; 2009)
parabéns “marco silva”

o “marco silva” a caminho da sua primeira vitória: “regata da ria, 2015”
o moliceiro “marco silva” faz hoje um ano. parabéns ao mestre, parabéns ao barco, parabéns a todos os que gostam de moliceiros e lutam pela tradição dos moliceiros à vela.
relembro o vídeo que fiz do bota-abaixo
mas, hoje, estão de parabéns todos os moliceiros que participaram na regata de 2015 e que, pelas suas prestações, tiveram direito a receber prémios de classificação na regata e de pinturas.
é que, finalmente foram pagos. é verdade. depois de ter divulgado o atraso nos pagamentos em publicação no facebook no dia 12 de maio (https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10201722706465353&set=gm.1739693149645723&type=3&theater) e no meu blog (https://ahcravo.com/2016/05/12/os-moliceiros-tem-vela-210/ ) houve quem enviasse email para a comunidade intermunicipal da ria de aveiro denunciando o que se passava.
não interessa quem foram, não interessa quantos foram, sabem os que o fizeram, como sabem os que nada fizeram.
a comunidade intermunicipal da região de aveiro, através de diligências do seu secretário-geral, providenciou o pagamento em falta, não porque ainda não o tivesse feito, mas porque a associação a quem entregou a organização não o fez. Informou também que seria adoptado novo modelo de organização da regata e pagamentos.
neste momento está tudo regularizado e, esperemos, o novo modo de procedimentos, não permita novos atrasos.
espero que não, para bem de todos e sossego de muitos.
amigos, valeu a pena.
termino como comecei, parabéns “marco silva”, pelo aniversário, parabéns a todos os moliceiros que continuam na luta pela tradição.

e o “marco silva” ganhou a primeira regata em que participou
as mulheres da torreira

a lurdes (orelhas) varre a bateira e a seguir o orelhas (henrique) bota o breu
elas vendem peixe
são mães
criam filhos e netos
elas vão ao rio
cozinham
lavam a roupa
elas safam redes
tratam da casa
fazem as contas
elas são
as mulheres da torreira
eles são
os homens delas

o casal orelhas e o trabalho de equipa
(torreira; junho, 2016)

construído pelo arrais marco silva, na torreira, o M. Fátima fez o seu primeiro lanço no dia 11 de junho de 2016.
desses momentos, aguardados com ansiedade por familiares e amigos, fica aqui o testemunho para memória futura.
se já há 10 anos que é arrais, marco silva é também mestre construtor naval, com um moliceiro, um barco de mar, uma bateira mercantela e várias bateiras caçadeiras por si construídas.
ao novo barco, a este homem de sete ofícios e a todos os seus familiares e companha, desejo muitas e boas safras. possa eu assistir ainda a bastantes.
felicidades arrais/mestre marco silva
hoje estou longe

o ti virgílio no sara e cristina
na terra ficaram poucos
que de pobre
futuro lhes negava
pouco levaram que
nada tinham
a não ser a memória
partiram muitos
mais que os que ficaram
à espera de vez
ou do regresso dos que
tinham partido
onde quer que estejam
estão sempre aqui
nestas palavras e imagens
onde também eu
abraço-os a todos
porque como sempre
hoje estou longe

um senhor no seu moliceirinho, o ti virgílio
(murtosa; regata do bico; 2008)
os meu amigos da ria

o meu amigo joão magina
os chocos não conhecem
esta bateira
dizia o joão hoje à tarde
a ria anda assim
o berbigão e ameijoa
onde estão?
o choco não entra
ao norte do porto de abrigo
quantas redes?
até quando a ria?

a safar as redes da solheira
(torreira; 15 junho, 2016)
hoje sou puto
(para o meu amigo ricardo)

o ricardo, o sílvio e ao fundo a aurora e a cacilda
continuo a chamar-te puto
e já és maior que eu
mas eu também envelheci
não é puto?
o barco é novo mas nós
conhecemo-nos
no primeiro M. Fátima
e cá estamos
tu feito um homem de mar
eu com a minha máquina
a salgar imagens na memória
olha ricardo
quando digo “puto”
também eu
continuo a pensar
que não envelheci
já lá vão onze anos
puto
onze anos e foi ontem
mas hoje
hoje sou como tu
hoje sou puto

o ricardo e o calão
(torreira; companha do marco; 2016)
da memória e das palavras

o ti zé rebeço
olho para a foto do ti zé rebeço e lembro-me dos meus tempos de canalha e de quando ia comprar leite a casa dos pais dele, mesmo em frente à dos meus.
e a palavra “canalha”, lembra-me outra que o meu tio avô, césar gorim, costumava usar numa frase que amiúde lhe ouvia – “são uns garotos” – e que ainda ouço na boca do ti zé rebeço.
na murtosa, quando as pessoas diziam “canalha”, referiam-se à “miudagem” e quando se usava a palavra “garoto”, era para classificar aqueles que usando calças se julgavam homens e faltavam à palavra dada, aldrabavam, enfim…….
hoje, se digo “garoto” refiro-me a um miúdo, e se digo “canalha” é insulto e toda a gente o sabe.
voltando ao ti zé rebeço e à memória de um tempo, usando as palavras dessa época e da terra, queria dizer:
– cada vez há menos canalha por aí e garotos, infelizmente, ainda continuam a abundar
(torreira; regata da ria; 2011)
hoje sou âncora

o joão gordo a cirandar
já não procuro as raízes
onde a árvore
encontrou a terra e se fez
bem fundo
na água salobra da ria
no mar da torreira
no nome herdado
não o do cartão
mas a alcunha
mais que cravo
sou gorim
quem se lembra
da ti apolónia
do gorim?
serei o último
nesta terra que os viu nascer
e pouco ou nada
deles sabe
em newark
os cravos gorins são
memória emigrada
os últimos também
hoje sou âncora
varada na areia de uma praia
condenada ao abandono

uma caixa de fruta, o fundo alterado e …. temos uma ciranda e a criatividade do pescador
(torreira; junho, 2016)