os moliceiros têm vela (183)


a história não é estória

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longe e perto

tenho o tamanho
que tenho
nem mais nem menos

saber o meu tamanho
é saber de mim
é essa a minha grandeza

não te temo por maior
que grande é o vendaval
e passa e morre e foi

digo-te que se quiser
terei o tamanho do tamanho
que tu tens e isso

faz de ti
alguém do meu tamanho
e de mim

um outro muito maior que tu

é com essa ilusão
de falsa grandeza
que do nosso prato
comes sentado à mesa

eu sei que vamos crescer
e papas na tua cabeça
comeremos mais uma vez

a história não é estória

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é na meta que se vê o tamanho

(torreira; regata do s. paio; 2014)

postais da ria (133)


parabéns amélia

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o silêncio ouve-se

um alarme soou
no telemóvel
a minha memória
depende dele

mas
hoje não te telefono
sei que não atendes
não atenderás mais

escrevo-te
ouço-te vejo-te
resistes
com a energia
que só tu

“por favor
não me ponham de baixa”

não
não foste tu que desististe
tu nunca desististe de nada
foi a vida que desistiu de ti

parabéns amélia
quero que saibam
que hoje fazes anos

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um postal para a amélia

(torreira)

crónicas da xávega (130)


muleta, mão de barca, regeira

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anda areia no ar junto com poalha de água

recordando

quando os barcos eram “empurrados” por uma  muleta como a que se vê nesta foto, o barco era mantido na perpendicular à praia, com a ajuda de duas cordas:

– a mão de barca, cala do aparelho que ficava em terra, que o arrais amarrava à bica da ré e ia largando conforme as possibilidades e as necessidades

– a regeira, corda presa ao golfião de bombordo da proa e que estava preso a um bordão enterrado na praia e da responsabilidade de um camarada da companha (enquanto foi vivo e lá trabalhou, era o ti antónio neto que o fazia)

a terceira corda que se vê na foto é a que está amarrada à muleta, para quando o arrais a soltar poder ser recuperada para terra.

vê-se areia por todo o lado porque o motor está a trabalhar e quando a onda recuou deixou-o em seco e o barco não largou como era de esperar.

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a cores as cordas são bem visíveis

(torreira; companha do marco; 2009)

postais da ria (132)


márcia evaristo (arrais da ria)

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tem carta de arrais e é camarada do tio quim nas artes da ria.

neste registo está a safar as redes, enquanto no rosto exibe ainda a maquilhagem que os chocos deixam nos rostos de quem os apanha.

são assim as pescadoras da ria

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(ria de aveiro; torreira; 2011)

crónicas da xávega (129)


o meu amigo luciano

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um dos momentos mais arriscados para os pescadores de terra, é o prender dos ganchos nos arganéis do barco, no momento de arribar.

ou quando já com o barco no mar é preciso trazê-lo de novo para terra e esperar por nova oportunidade.

neste registo qualquer uma dessas situações pode estar a acontecer, se o arrais tiver decidido arribar de popa.

tractores, arrais, pescadores de terra e mar, têm de ter em atenção não só as ondas, como a possibilidade de um movimento lateral do barco lhes esmagar as pernas.

o luciano, não grita por medo, grita para orientar o tractor, provavelmente para lhe dizer que está preso o gancho porque é responsável e que puxe o barco para a praia.

 

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(torreira; companha  do marco; 2009).

fernandito meireles, outubro, 2014


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concerto incluído na semana internacional de guitarra, organizada pela orquestra clássica do centro, no pavilhão de portugal, em coimbra

no dia 19 de outubro de 2014

“Exposição / apresentação de instrumentos do construtor Fernando Meireles

Concerto com Fernando Meireles & friends

Percussão – Estela Lopes; guitarra–Amadeu Magalhães; Fernandito Meireles – violino

Fernando Meireles – sanfona e bandolim

Fernando Meireles, músico, investigador e artesão, o mais afamado construtor de guitarras portuguesas e o único que se aventurou na arte de recriar um instrumento medieval, a sanfona.

“De todas as tarefas que desempenho a que me dá mais prazer é construir instrumentos. Comecei a fazê-los porque os tocava, mas agora toco-os por os fazer. Se não os tocasse e investigasse, nunca teria atingido o nível que atingi.” Nomes como Júlio Pereira, Pedro Caldeira Cabral ou Amadeu Magalhães não abdicam de tocar com peças que possuem a marca de fabrico artesanal deste jovem de idade incerta que nasceu em Penafiel e vive em Coimbra, onde tem um ateliê no edifício da Associação Académica.

Neste concerto são interpretadas Músicas das tradições europeias com destaque para a Música Tradicional Portuguesa”

 

postais da ria (131)


não merecem

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a alar a solheira

fizeram-se homens
ainda crianças
na escola dos barcos

fazem de cabeça
as contas
das malhas das redes

nunca têm nos bolsos
quanto baste
para poderem dizer

vou de férias

partem para longe
vão de viagem
em busca do pão
que a ria nega
o comprador não dá

sei deles o suficiente
para vos dizer

não merecem

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não ser de oiro a pescaria

(torreira)

crónicas da xávega (128)


são pescadores

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o chegar do saco

há quem deixe nome
obra e fama
herança quanto baste

há quem nada deixe
porque nada foi
no tanto de ter sido

oferecem o corpo
ao mar
vestem-se de vento
e areia

perdem-se à noite
por onde mais
ninguém senão eles

são ninguém
são gente
são pescadores

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há os que partiram, os que resistem e os que já não voltam

(torreira; companha do marco; 2009)