fecho os olhos

fecho os olhos
para te ver
reinvento o corpo
desde a raiz o percorro
algures os lábios
eu sei
tão longe
(torreira; 2015)
fecho os olhos

fecho os olhos
para te ver
reinvento o corpo
desde a raiz o percorro
algures os lábios
eu sei
tão longe
(torreira; 2015)
da escrita

o safar das redes da solheira
só escrevendo
me liberto
do que sinto
safar de outras
redes
da arte de viver
hoje não escrevi
(torreira; 2018)
hoje

o “Doroteia Verónica” ainda era um moliceiro inteiro
entra em mim o outono
por debaixo da porta
deste estar aqui ainda
o vento levou as memórias
onde habito
fui-me e fiquei
para ser
o que esqueci

o “Doroteia Verónica” ainda era um moliceiro inteiro
(torreira; regata da ria; 2011)
ti zé

eles pensam que sabem
porque atrás do nome
têm um título
são ignorantes
e não o sabem
ti zé
você não sabe que sabe
por isso é sábio
sabedoria ignorada
a da vida
(torreira; 2015)
caso perdido

sei que não saberás
onde estás quando
te derem por perdido
não saberás
como nunca soubeste
de tão perdido teres
andado sempre
talvez sejas
um caso perdido
(torreira; 2013)
balanço

deito-me cansado
de tudo
olho-me ao longe
no ter sido
estranho serem minhas
as palavras
quem era eu que me
não sei

(torreira; 2013)
meditação com a ria em fundo

o ti zé rebeço, homem da ria
quem sou fez-se
quem me fez
não sei se o sabe
vou rente ao mar
enterro na areia os pés
equilíbrio precário
porém seguro e firme
crescemos aprendendo
dolorosamente por vezes
o cuidado no colher
da rosa
é evitar os espinhos
se visíveis forem

ti zé rebeço, a ria como casa
(torreira; regata de bateiras à vela; s. paio ; 2013
nós

não há geografia
que mate os afectos
impossível desatar
nós ancestrais
entrego-me nas mãos
do tempo e sou
(torreira; 2010)
olhares cegos

será negra a noite
mas nela encontrarás luz
suficiente
entre noite e noite
muitas cores povoarão
o dia e o teu registo
mas
a cor do dinheiro
ficou esquecida
nos teus postais
olha como quem vê
não como quem ignora
(torreira; safar redes; 2016)
lembrando joaquim namorado
fraca gente
escondem o rosto
o dizerem-se
quantos por detrás
nunca se sabe
muitos o silêncio
encobrir pode
na ânsia de insultar
rebaixam o nome
da terra das gentes
deixam como vermes
rasto peçonhento
fraca gente esta
vontade de a sacudir
como a areia das redes

o sacudir do saco
(torreira; 2015)