crónicas da xávega (153)


HOMENS

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a pancada é dura

sei que antes de entrarem
no barco olham o mar

sei que se benzem
sei que têm fé

sei que precisam de
ir ao marpara ganhar a vida

porque gostam
porque é um desafio

porque são HOMENS

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HOMENS

(praia de mira; companha do zé monteiro; 2010)

postais da ria (154)


rapar a ria

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com um balde e um pequeno ancinho, na maré vazia, nos cabeços em seco ou com pouca água a cobri-los, apanhava-se a amêijoa japónica, o berbigão.

ao longe, nada mais vês que um casal que parece passear por sobre as águas, povoando o silêncio com as suas vozes, que não ouves mas imaginas

uma paisagem belíssima, um lugar onde o silêncio se ouve e os olhos se limpam da sujidade urbana.

ajoelham-se, pousam o balde, pegam no ancinho e começam a “rapar” a lama da ria. dirias como se batatas, mas aqui, na lama, são amêijoas que colhem.

horas seguidas, tantas quantas a maré permita, que o corpo, esse terá de aguentar.

sobreviver aqui é sobre-utilizar o corpo, desgastá-lo, moê-lo, consumi-lo.

e tudo em silêncio vai pingando para os bolsos dos mesmos, dos que não estão na fotografia.

a japónica deu de comer a muita gente durante dois anos depois, num inverno mais longo e chuvoso, as águas adocicaram e morreu. dela pouco ou nada resta.

os homens e as mulheres, continuam a caminhar e a rapar a ria, são menos, a colheita é pobre, vivem do que a ria ainda dá.

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(torreira; 2012)

crónicas da xávega (152)


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o stalone, o horácio, o calão, a mão de de barca, a manga

ao fundo virá o saco

no fundo do saco, talvez peixe

se peixe houver, que peixe será

se for do vendável, a como o comprarão, se é que o comprarão

é peixe fresco, é peixe do mar, é suor desta gente

quem o come, come ouro, mas alguns ainda o querem dado. estão de férias e esquecem-se que só o estão, porque lhes pagaram o ano inteiro.

quando aqui chegares traz mais
que uma máquina
um fato de banho
um desejo de sol e mar

traz o entendimento
que esse
nunca o deixes ir de férias

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(torreira; companha do marco; 2013)

os moliceiros têm vela (202)


a vida antes da morte

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não me preocupa o que acontece depois de morrermos, preocupa-me sim o como morremos.

no momento em que em portugal se vai discutir a legalização da eutanásia, tudo o que com ela se relacione, nos países onde já é legal, é notícia. infelizmente nem tudo, só aquilo que interessa a quem dominando os meios de comunicação se opõe à sua legalização.

não haverá muitos dias, numa estação de rádio, foi transmitida uma entrevista com uma enfermeira portuguesa a trabalhar na bélgica, que tinha participado numa morte assistida.

a moça estava chocada, disse que se recusava a participar em qualquer outro acto semelhante. relatou que a pessoa em causa, uma mulher, estava lúcida, era saudável, mas “sentia-se só e queria morrer”.

nem a filha a demoveu, e no momento do desenlace despediram-se uma da outra com um

“amo-te”

ora tudo isto aconteceu num “lar de idosos” onde a enfermeira trabalhava, disse.

nunca a ouvi questionar o funcionamento do lar. porque é que num lar uma pessoa se pode sentir só?

se é assim na bélgica, como será em portugal?

assustam-me os lares de idosos, como me assusta o sofrimento que só adia a morte.

preocupa-me que uma pessoa saudável, se sinta só num lar e peça para morrer.

preocupa-me esta sociedade egoísta e cínica que não vê que a maioria dos “lares de idosos” são a prática “piedosa” da eutanásia.

preocupa-me

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(torreira; regata do s. paio; 2012)

crónicas da xávega (151)


meditação breve

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a fotografia aos fotógrafos
a poesia aos poetas
nada mais vos quero deixar
que a memória das gentes
as palavras do que sinto
sou ou tento ser

tenho a noção
do quão pouco valho
mas não seja por isso
que nada faça

como esta gente que espera
os que ao mar se hão-de fazer
também eu dou o que tenho
sabendo que mesmo pouco
falta fará que seja feito

leio vejo escuto
com nada fico
se tenho dou reparto
migalhas sejam
como estas

pão à mesa de quem
não tem voz

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(torreira; companha do marco; 2009)

cheguem os que ao mar vão, que tudo está pronto para a partida e a voz de mando do arrais

postais da ria (152)


boas manel

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éramos jovens e cantávamos
mal eu e tu
os artistas eram outros mas a festa
éramos todos

quarenta cinco anos lá vão
regressaram hoje
quando soube que tinhas
não sei como dizê-lo

só sei que não voltarás
a responder-me
sempre que te falar

direi “olá manel”
e só o silêncio do outro lado

começo a ter muitas respostas
de silêncio

mas voltemos à festa ao sermos
jovens e ser verão
haver um monte branco
monte branco mesmo
o francês
os passeios rente à ria
as cantorias com e sem violas
as conversas

quarenta e cinco anos manel
é muito tempo

mas estás agora aqui comigo
em silêncio
enquanto os ouvimos cantar
e tocar
na areia da praia que também
já não é

abraço manel
é bom estar contigo

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(ria de aveiro; cais do bico)