o poeta é

seres tu o poema
poesia os teus dias
o poeta é
o mais são palavras
em busca da luz

(torreira; 2017)
o poeta é

seres tu o poema
poesia os teus dias
o poeta é
o mais são palavras
em busca da luz

(torreira; 2017)

hoje
filho da mãe
é dia do pai
espero que te lembres
os teus filhos lembrar-se-ão de ti
e tu por tabela do teu
quero-te dizer filho da mãe
palavras poucas
que muitas não conheces
sabendo da tua natural ignorância
conheces a palavra desprezo?
se tiveres de recorrer ao dicionário
vai antes à net é um hábito teu
é mais simples por vezes acerta
e não é um livro
o que não te explica
nem te explicará nunca
é o sentimento expresso pela palavra
o que sinto por ti
filho da mãe
não há computador que te diga
nem mesmo se levares com ele nos ditos
cuidado que para a outra vez
se a houver
pode o telemóvel estar desligado
com esta me despeço
adeus
e não há retrocesso
juntos

partiram alguns
ficaram poucos
cresceram todos
eu lembro-me de ter sido
mais um
que se lembrem eles de
de mim
agora que lhes devolvo
o termos sido
para sermos de novo
os putos da ria
e o ti cravo
juntos

(torreira; 2012)
carta ao meu amigo miguel bitaolra

o tempo correu depressa
ti miguel
você deixou o mar
o corpo já não permite
a dureza da faina
lembro-me de si
e do alfredo fareja
das alegrias
das brincadeiras
do mar ali e nós
o ti alfredo já partiu
já partiram muitos
a areia é ainda a mesma
os barcos ainda vão ao mar
ainda há companhas na torreira
apeteceu-me escrever-lhe
oito anos depois
de lhe ter tirado esta foto
apeteceu-me a memória do que foi
quando não sei o que será
apeteceu-me agora
e agora foi mais forte
abraço ti miguel

(torreira; 2009)
do fotógrafo

no tribunal do tempo
o fotógrafo é testemunha
ou está presente
ou nunca existiu

(murtosa; regata do bico; 2010)
milagres

torreira
todo o inexplicável
ir-se-á explicando
entretanto
florescem milagres
nos jardins dos incréus
pergunto

ontem fui
hoje sou
amanhã não sei
se serei
e tu será que
hoje és
ou já foste?
(torreira; 2017)
caminhos de areia

seco o saco a companha leva à zorra
serem de areia os caminhos
ser pesado o fardo
de vivo estar e não haver outro
que melhor sabido
acredito
acredito sempre no homem
no homem e na sua palavra
serem os caminhos de areia
é serem eles por vezes
caminhos da palavra
então digo
não foi perdido o tempo
foi perdido o homem
a palavra é muito mais
cresce no tempo onde ele já não

ardem na areia os pés
(torreira; 2013)
sou vela

a bordo do moliceiro do ti abílio
abre a porta e sai
se fechada procura a janela
recusa as paredes
a prisão longe de tudo o que
ser a casa abrigo
é coisa que há muito muitos
ser a casa prisão
é coisa de que há muito muitos
vim de longe
não sei para onde vou
nem quando
mas uma coisa te digo
fechem-me a porta na cara
recusem-me à janela
mas não me tirem a rua
e a varanda sobre os dias
sou vela

a bordo do moliceiro “DOS NETOS”
(torreira; regata do s. paio; 2016)

enfeitar
sim
salgaram tudo
terra casa afectos
a memória
não
com o ancestral intento
de preservar deixar para
não
sabia
demasiado sal
queima mata esteriliza
sabiam-no e deixaram
então digo
não há beleza no sal
nem nunca haverá
nos assassinos
a desconstrução da beleza
é criminosa
(morraceira; 2016)