música para um filho da mãe no dia do pai


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hoje
filho da mãe
é dia do pai

espero que te lembres
os teus filhos lembrar-se-ão de ti
e tu por tabela do teu

quero-te dizer filho da mãe
palavras poucas
que muitas não conheces
sabendo da tua natural ignorância

conheces a palavra desprezo?
se tiveres de recorrer ao dicionário
vai antes à net é um hábito teu
é mais simples por vezes acerta
e não é um livro

o que não te explica
nem te explicará nunca
é o sentimento expresso pela palavra

o que sinto por ti
filho da mãe
não há computador que te diga
nem mesmo se levares com ele nos ditos

cuidado que para a outra vez
se a houver
pode o telemóvel estar desligado

com esta me despeço
adeus
e não há retrocesso

crónicas da xávega (194)


carta ao meu amigo miguel bitaolra

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o tempo correu depressa
ti miguel
você deixou o mar
o corpo já não permite
a dureza da faina

lembro-me de si
e do alfredo fareja
das alegrias
das brincadeiras
do mar ali e nós

o ti alfredo já partiu
já partiram muitos
a areia é ainda a mesma
os barcos ainda vão ao mar
ainda há companhas na torreira

apeteceu-me escrever-lhe
oito anos depois
de lhe ter tirado esta foto

apeteceu-me a memória do que foi
quando não sei o que será

apeteceu-me agora
e agora foi mais forte

abraço ti miguel

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(torreira; 2009)

crónicas da xávega (193)


caminhos de areia

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seco o saco a companha leva à zorra

serem de areia os caminhos
ser pesado o fardo
de vivo estar e não haver outro
que melhor sabido

acredito
acredito sempre no homem
no homem e na sua palavra

serem os caminhos de areia
é serem eles por vezes
caminhos da palavra

então digo
não foi perdido o tempo
foi perdido o homem

a palavra é muito mais
cresce no tempo onde ele já não

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ardem na areia os pés

(torreira; 2013)

os moliceiros têm vela (251)


sou vela

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a bordo do moliceiro do ti abílio

abre a porta e sai
se fechada procura a janela
recusa as paredes
a prisão longe de tudo o que

ser a casa abrigo
é coisa que há muito muitos

ser a casa prisão
é coisa de que há muito muitos

vim de longe
não sei para onde vou
nem quando

mas uma coisa te digo
fechem-me a porta na cara
recusem-me à janela

mas não me tirem a rua
e a varanda sobre os dias

sou vela

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a bordo do moliceiro “DOS NETOS”

(torreira; regata do s. paio; 2016)

a beleza do sal (14)


 

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enfeitar

sim
salgaram tudo
terra casa afectos
a memória

não
com o ancestral intento
de preservar deixar para
não

sabia
demasiado sal
queima mata esteriliza
sabiam-no e deixaram

então digo
não há beleza no sal
nem nunca haverá
nos assassinos

a desconstrução da beleza
é criminosa

(morraceira; 2016)