quando

com joão costeira
quando te contarem
cala
mesmo sabendo que
falso
não perturbes o lento
desmoronar da casa
(torreira; o largar da solheira; 2010)
quando

com joão costeira
quando te contarem
cala
mesmo sabendo que
falso
não perturbes o lento
desmoronar da casa
(torreira; o largar da solheira; 2010)
quando o mar trabalha

depois de seco o saco é de novo fechado para o aparelho da xávega poder fazer novo lanço. ao acto de fechar o saco chama-se “dar o porfio”, é o que está a fazer o meu amigo agostinho canhoto
é de rede
deitada ao mar do tempo
este livro
em terra
ficará a contar estórias
a falar de muitas vidas
e saberes
fora dele muito mais
que para tudo
saco não havia
e peixe houve que saltou
deu-se o porfio
fechou-se o saco
é na praia que encontras
os búzios que procuraste
em casa
(torreira; 2011)
a eternidade

se toda a beleza
cabe num instante
também a morte
olho os barcos
vejo os homens
vida a vibrar
angustiam-me barcos
vazios
prenunciando a morte
habitada ria esta
onde homens e barcos
celebram o instante
a eternidade
é aqui agora
feliz eu

(regata do bico; 2018)
(o livro está aí, estão todos convidados)


sei-me
sou eu ainda
depois de
sei-me
mesmo se
não me nego
estou comigo
(torreira; regata da ria; 2013)

o fechar do saco
o poema
o poema
fechou-se sobre si
olhou-se pensou-se
disse-se
o poeta envergonhado
cobriu-se de palavras
descansou
esperar é um acto
de sabedoria
o poema se o houver
dir-se-á de novo

o fechar do saco
(costa de lavos; 2017)
torreira
torreira é nome
de mulher
feito terra
escuto a sua voz
a camaradagem
o ser completa
torreira é o mar
os barcos
as companhas
é o rio as gentes
os saberes
o pouco de tanto
o mais por belo
que seja
vazio de corpos
é paisagem

(torreira; safar redes; 2018)
apenas um vidro
nos separa
e são dois mundos

(torreira; 20_06_2018)
bem vindo à sua terra
bem vindo à sua terra
dizem-me quando
não sei desfazer este nó
prendem barcos
unem cordas
ligam gente
são raízes
os nós
mas como são frágeis
os nós humanos
como somos
sem nós
há nós impossíveis
de desfazer
pois há

(torreira; 2010)
vêm devagar
vêm devagar os amigos
chegam pela mão da memória
por vezes tarde demais
partem depressa os amigos
olho-os como se ainda
mas é tarde muito tarde
sei que partiram alguns
cada dia mais
enquanto eu vou resistindo
enquanto passear pelos dias
levo-os pela mão
e deixo-os convosco à conversa
nada mais posso fazer

o falecido manuel vieira (valas)
(murtosa; regata do bico; 2007)