juntos

partiram alguns
ficaram poucos
cresceram todos
eu lembro-me de ter sido
mais um
que se lembrem eles de
de mim
agora que lhes devolvo
o termos sido
para sermos de novo
os putos da ria
e o ti cravo
juntos

(torreira; 2012)
juntos

partiram alguns
ficaram poucos
cresceram todos
eu lembro-me de ter sido
mais um
que se lembrem eles de
de mim
agora que lhes devolvo
o termos sido
para sermos de novo
os putos da ria
e o ti cravo
juntos

(torreira; 2012)
carta ao meu amigo miguel bitaolra

o tempo correu depressa
ti miguel
você deixou o mar
o corpo já não permite
a dureza da faina
lembro-me de si
e do alfredo fareja
das alegrias
das brincadeiras
do mar ali e nós
o ti alfredo já partiu
já partiram muitos
a areia é ainda a mesma
os barcos ainda vão ao mar
ainda há companhas na torreira
apeteceu-me escrever-lhe
oito anos depois
de lhe ter tirado esta foto
apeteceu-me a memória do que foi
quando não sei o que será
apeteceu-me agora
e agora foi mais forte
abraço ti miguel

(torreira; 2009)
do fotógrafo

no tribunal do tempo
o fotógrafo é testemunha
ou está presente
ou nunca existiu

(murtosa; regata do bico; 2010)
milagres

torreira
todo o inexplicável
ir-se-á explicando
entretanto
florescem milagres
nos jardins dos incréus
pergunto

ontem fui
hoje sou
amanhã não sei
se serei
e tu será que
hoje és
ou já foste?
(torreira; 2017)
caminhos de areia

seco o saco a companha leva à zorra
serem de areia os caminhos
ser pesado o fardo
de vivo estar e não haver outro
que melhor sabido
acredito
acredito sempre no homem
no homem e na sua palavra
serem os caminhos de areia
é serem eles por vezes
caminhos da palavra
então digo
não foi perdido o tempo
foi perdido o homem
a palavra é muito mais
cresce no tempo onde ele já não

ardem na areia os pés
(torreira; 2013)
sou vela

a bordo do moliceiro do ti abílio
abre a porta e sai
se fechada procura a janela
recusa as paredes
a prisão longe de tudo o que
ser a casa abrigo
é coisa que há muito muitos
ser a casa prisão
é coisa de que há muito muitos
vim de longe
não sei para onde vou
nem quando
mas uma coisa te digo
fechem-me a porta na cara
recusem-me à janela
mas não me tirem a rua
e a varanda sobre os dias
sou vela

a bordo do moliceiro “DOS NETOS”
(torreira; regata do s. paio; 2016)

enfeitar
sim
salgaram tudo
terra casa afectos
a memória
não
com o ancestral intento
de preservar deixar para
não
sabia
demasiado sal
queima mata esteriliza
sabiam-no e deixaram
então digo
não há beleza no sal
nem nunca haverá
nos assassinos
a desconstrução da beleza
é criminosa
(morraceira; 2016)
carta

quando o barco é o camarada
sabes a quanto vendem os pescadores
o quilo de choco?
de linguado?
de berbigão?
de ameijoa?
de mexilhão?
de linguado?
sabes quantas horas de ria
para apanhar nunca se sabe quanto
embora se saiba a quanto?
quantas horas a safar redes?
quantos euros em gasolina?
quantas idas à fisiatria?
quantos dias de férias?
quanto ao fim do ano?
procura as respostas
encontrarás o labor
por detrás das bateiras adormecidas
e farás dos teus postais
um hino aos homens e às mulheres
que todos os dias
todas as semanas todo o ano
deixam na ria o corpo
pedaço a pedaço
se mal pagos são
pelo que do corpo lhes sai
sejas tu a cantá-los
quando pela madrugada
ou ao fim do dia
lhes fotografas os barcos
e
nos enches de espanto
(torreira; 2016)
se

depois de arribar
apanhou o barco?
mostre!
pedem pouco os homens
que são tanto
assim caminham pelos dias
desconhecendo-se
sabendo apenas que
não sabem mais nada
nem eu sei
se

(torreira; 2016)