crónicas da xávega (194)


carta ao meu amigo miguel bitaolra

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o tempo correu depressa
ti miguel
você deixou o mar
o corpo já não permite
a dureza da faina

lembro-me de si
e do alfredo fareja
das alegrias
das brincadeiras
do mar ali e nós

o ti alfredo já partiu
já partiram muitos
a areia é ainda a mesma
os barcos ainda vão ao mar
ainda há companhas na torreira

apeteceu-me escrever-lhe
oito anos depois
de lhe ter tirado esta foto

apeteceu-me a memória do que foi
quando não sei o que será

apeteceu-me agora
e agora foi mais forte

abraço ti miguel

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(torreira; 2009)

crónicas da xávega (193)


caminhos de areia

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seco o saco a companha leva à zorra

serem de areia os caminhos
ser pesado o fardo
de vivo estar e não haver outro
que melhor sabido

acredito
acredito sempre no homem
no homem e na sua palavra

serem os caminhos de areia
é serem eles por vezes
caminhos da palavra

então digo
não foi perdido o tempo
foi perdido o homem

a palavra é muito mais
cresce no tempo onde ele já não

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ardem na areia os pés

(torreira; 2013)

os moliceiros têm vela (251)


sou vela

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a bordo do moliceiro do ti abílio

abre a porta e sai
se fechada procura a janela
recusa as paredes
a prisão longe de tudo o que

ser a casa abrigo
é coisa que há muito muitos

ser a casa prisão
é coisa de que há muito muitos

vim de longe
não sei para onde vou
nem quando

mas uma coisa te digo
fechem-me a porta na cara
recusem-me à janela

mas não me tirem a rua
e a varanda sobre os dias

sou vela

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a bordo do moliceiro “DOS NETOS”

(torreira; regata do s. paio; 2016)

a beleza do sal (14)


 

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enfeitar

sim
salgaram tudo
terra casa afectos
a memória

não
com o ancestral intento
de preservar deixar para
não

sabia
demasiado sal
queima mata esteriliza
sabiam-no e deixaram

então digo
não há beleza no sal
nem nunca haverá
nos assassinos

a desconstrução da beleza
é criminosa

(morraceira; 2016)

postais da ria (202)


carta

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quando o barco é o camarada

sabes a quanto vendem os pescadores

o quilo de choco?
de linguado?
de berbigão?
de ameijoa?
de mexilhão?
de linguado?

sabes quantas horas de ria
para apanhar nunca se sabe quanto
embora se saiba a quanto?

quantas horas a safar redes?
quantos euros em gasolina?
quantas idas à fisiatria?
quantos dias de férias?
quanto ao fim do ano?

procura as respostas
encontrarás o labor
por detrás das bateiras adormecidas
e farás dos teus postais
um hino aos homens e às mulheres
que todos os dias
todas as semanas todo o ano
deixam na ria o corpo
pedaço a pedaço

se mal pagos são
pelo que do corpo lhes sai
sejas tu a cantá-los
quando pela madrugada
ou ao fim do dia
lhes fotografas os barcos

e
nos enches de espanto

(torreira; 2016)