os moliceiros têm vela (250)


o meu amigo ti zé rebeço

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o ti zé sempre

que idade tem um homem
quando é um homem de todas as idades?

o que pesa aos ombros de um homem
quando o que carrega é a própria vida?

um mastro de moliceiro
foi tronco de árvore
é hoje a raiz de uma gente
onde a bandeira de um povo
ergue a voz de ser ainda

amanhã ti zé
amanhã iremos sempre à ria
seremos todos os que já foram
todos os que hão-de ser
sabendo que aqui
o moliço foi rei
e os homens quando falavam
empenhavam a palavra

ainda os há ti zé
ainda os há
os de palavra aqui

(regata do bico; 2016)

o vídeo da regata

(todos os anos no primeiro fim de semana de agosto realiza-se na murtosa, no cais do bico, a festa do emigrante.

o ponto alto é no domingo, depois de almoço, a regata de moliceiros. sempre a festa maior da ria.

este vídeo, mais um registo para memória futura, foi feito com a câmara colocada na bica da proa do moliceiro “A. Rendeiro” do ti zé rebeço, moliceiro dos velhos tempos e que bebe na ria a vida de cada dia, aos 76 anos idade. é seu camarada, nos últimos anos, manuel antão.

procurei neste registo não fazer corte de tempos que “parecem” mortos, fica à responsabilidade de quem o vir, segundo a sua sensibilidade e ligação à ria, fazer os cortes que achar por bem – acelerando, por exemplo, durante alguns momentos a passagem do vídeo e voltando ao normal quando o entender.

que corte quem vê e não quem faz é o meu critério neste tipo de registos.)

 

mãos de mar (13)


as mãos que não vês

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as mãos do agostinho

mãos vazias
esculpidas pelo cinzel
do tempo

mãos de não ter havido
herança basta
apelido sonante

mãos salgadas
de tanto mar tanto suor
tanto serem

mãos com voz
mãos nossas ignoradas
mãos silenciadas

mãos mãos mãos
quantas na mesa o peixe
a carne o pão o vinho

mãos com rosto
mãos mãos mãos

olha as mãos
que não vês

(torreira; 2013)

para o zeca


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amigo
serás sempre maior que o pensamento

tu que cantaste maio
e foi numa madrugada de abril
tu que foste a toupeira
e cantaste o sol e nos levaste a agarrá-lo

amigo
serás sempre maior que o pensamento

as tuas palavras a tua voz
são ainda tu aqui agora
sempre

duas sílabas um nome
um grito uma canção um protesto
uma revolta um princípio
uma alavanca um não desistir
aqui agora sempre

amigo
serás sempre maior que o pensamento

30 anos depois
não há depois
há o futuro todo

amigo
serás sempre maior que o pensamento

(abril, a 25)

a beleza do sal (12)


só há uma partida

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enfeitar

só há uma partida
a definitiva
o mais são abandonos
por raiva desilusão
amar demais para

amanhã vou para o sul
voltarei breve
enquanto regresso
possível for

deixo-vos com o sal
e o corpo de uma mulher
lugar onde terra e mar
se unem para dar
sabor à vida

(morraceira 2016)

postais da ria (200)


sou gorim

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e as raízes cresceram para a ria
atravessaram as conchas vazias
traiçoeiro chão
foram ao encontro das origens primordiais

olhei os rostos parados
poisados nas lápides de mármore branco
escutei as vozes antigas
e todas me disseram
és daqui gorim

erguidos os braços
as mãos saudavam-me de dentro das bateiras
do meio da ria
sabiam-me
em voz alta digo os nomes
chamo-os
reconheço neles a minha gente

voltei para partir?
não sei
só sei que estarei sempre aqui
como os que já cá não estão

os gorim

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(torreira; 11 de fev de 2017)

na bateira o henrique gamelas ciranda a parca apanha de berbigão. a vida não está fácil na ria

os moliceiros têm vela (248)


“moliceiro”

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o ti abílio e o cunhado no canal de aveiro

queria escrever uma palavra
uma imagem
algo que ficasse para além de mim
do efémero hoje
do eterno ontem
do provável amanhã
que falasse de um povo
duma terra dum sentir

do ser

enchi folhas e folhas
de palavras de sonhos
esboços rascunhos

por mais que procurasse
apenas uma me encheu
de tudo e de todos
de tempo e de o não haver

a palavra a imagem o homem
sobrepunham-se numa só linha
em letras breves

“moliceiro”

(regata da ria; 2013)

 

postais da ria (199)


do viver

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o meu amigo ti zé formigo

há os que usam da memória
para serem o que já foram
ilusão de

eu uso a lucidez que me resta
para viver os dias
sem ilusões

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o prazer da ria é ser nela todo

(torreira; s. paio; 2014)

o ti zé formigo ao leme da sua bateira, no permanente resistir às adversidades da vida