a companha

albina amador
vergam-se os corpos
nestes caminhos de areia
dia após dia diversos
ser mulher aqui
é ser mais um
igual na diferença
dar tudo
como todos
ser camarada
na companha

(torreira; companha do marco; 2013)
a companha

albina amador
vergam-se os corpos
nestes caminhos de areia
dia após dia diversos
ser mulher aqui
é ser mais um
igual na diferença
dar tudo
como todos
ser camarada
na companha

(torreira; companha do marco; 2013)
um dia eu também

o “doroteia verónica” era assim
regressarei sempre
ao corpo
ao meu corpo ainda
esta coisa onde me
penduro
estendal de saberes
palavras sentires
por haver já
não muito para
uma folha caiu
levantou voo
ligeira uma ave
um dia eu também

um moliceiro é assim
(torreira; regata do s. paio; 2010)
há dias assim

a ceifa da ria
não morras já
deixa que as gaivinas
levantem voo
depois
depois parte

seara salgada esta
(torreira; apanha de ameijoa japónica)
da raiva

podem os homens
vencer o mar
ser o barco a casa
pode o mar calar
os homens
ouvir as mulheres
pode esta raiva
que trago no peito
salgar-me os olhos
enquanto pergunto
porquê
por muito pouco
que saibas do mar
saberás sempre
menos dos homens
fica a raiva a rugir
nas manhãs dos dias
breve anoitecidos
amarelecida espuma

(torreira; companha do marco; 2013)
para os que longe

dói-me o que sei
e não vejo
falo da saudade

(murtosa; regata do bico; 2008)
da insónia

raiva de não escrever
de olhos fechados
as palavras que me assaltam
noite dentro e fogem
sem deixar mais
que a lembrança
de terem sido
tudo parecia tão claro

(torreira; o alar da solheira)
até um dia

o stalone agarra o calão e o ti américo desata o nó que prende a corda do arinque do reçoeiro
maiores que o mar
efémeros como a espuma
enterram na areia
os pés
espero os dias de sol
encharcados de sal
para os reencontrar
um dia

(torreira; companha do marco; 2012)
mensagem de ano novo
(aos donos da pátria dos moliceiros)

tão pouco fazem
depois de tanto terem dito
que chego a pensar que são
outros neles

o moliceiro “alfredo rebelo”
(murtosa, regata do bico; 2006)
sem tempo

no meu é que era
tudo tem o seu
foi mesmo a
falta-me sempre
não sei se chega a
já não era sem
veio fora de
tanto sem te ver
estou a matar o
acabou-se o

(torreira; regata da bateiras à vela; s. paio; 2012)
contar porquê

quantos anos? não os contei (o carregar das redes para secarem ao sol)
começa um ano
continua o tempo
por sobre a areia
nem pegadas
que o vento
das gentes pó
a areia o mar
a memória
fica o retrato a falar
do que perdi a conta
tempo houve em que
era assim
ainda é ainda é ainda
não conto nada
registo o que posso
(torreira; século XX)