crónicas da xávega (123)


da raiva

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podem os homens
vencer o mar
ser o barco a casa

pode o mar calar
os homens
ouvir as mulheres

pode esta raiva
que trago no peito
salgar-me os olhos
enquanto pergunto

porquê

por muito pouco
que saibas do mar
saberás sempre
menos dos homens

fica a raiva a rugir
nas manhãs dos dias
breve anoitecidos

amarelecida espuma

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(torreira; companha do marco; 2013)

crónicas da xávega (122)


até um dia

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o stalone agarra o calão e o ti américo desata o nó que prende a corda do arinque do reçoeiro

maiores que o mar
efémeros como a espuma
enterram na areia

os pés

espero os dias de sol
encharcados de sal
para os reencontrar

um dia

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(torreira; companha do marco; 2012)

crónicas da xávega (121)


contar porquê

0bs ahcravo_Scan20112 carregar a corda

quantos anos? não os contei (o carregar das redes para secarem ao sol)

começa um ano
continua o tempo

por sobre a areia
nem pegadas
que o vento

das gentes pó
a areia o mar
a memória

fica o retrato a falar
do que perdi a conta

tempo houve em que
era assim
ainda é ainda é ainda

não conto nada
registo o que posso

(torreira; século XX)

 

os moliceiros têm vela (173)


UM BOM ANO DE 2016

sobreviver

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

o moliceiro “dos netos” do ti abílio carteirista

de velas pandas os dias
seguiram o seu caminho
barcos ante nossos olhos

espanto de ainda por cá
resistir teimoso à chamada
espantoso o ser ainda

um moliceiro voga na ria
quero deixar-vos um ror deles
a encher-vos os olhos

nada mais vos peço que
sonheis com muita força
só assim os moliceiros hão-de

sobreviver

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

a bandeira da pátria dos moliceiros

(murtosa; regata do bico; 2007)