
andam cisnes na ria
sou-me estranho
não me sei
despido do outro

como são diferentes estes dias
(murtosa; regata do bico; 2009)

andam cisnes na ria
sou-me estranho
não me sei
despido do outro

como são diferentes estes dias
(murtosa; regata do bico; 2009)

é dura a solidão do pão
hoje saí à rua nu
enquanto caminhava
fui-me vestindo
com tudo o que via
cheguei a casa
com roupa nova

ajoelhado na lama um homem, ou uma mulher, busca na lama o sustento
(torreira; apanha de bivalves)
na vela o vento

com duas velas
ser ainda árvore
depois da tempestade
deixar que o vento siga
a sua eterna viagem
fundas as raízes na terra
escrevem o teu nome
sorris sem saber como
nem para quem
mais forte o sorriso
que o vento
na vela

que beleza é esta?
(torreira; regata da ria; 2011)
há janelas

como não sonhar com vistas assim?
há janelas com ambição
de terem portas
serem casa
sem saberem de paredes
alicerces chão
há janelas que se inventam

quisera da minha janela as visse
(torreira; regata s. paio; 2014)

ser ainda maior
ser maior que o medo
é arte de pescador

ah! mar dum raio
(torreira; companha do marco; 2015)
a capa

o salvador e o falecido pai, ti domingos, cirandam berbigão
não lhes conheces
o rosto o nome
o quanto
à mesa saboreias
o que deles
olhas os registos
estudas contrastes
enquadramentos
outro repasto
para outro prazer
regressarás quando
só porque viste
saboreaste sentiste
mas não lhes sabes
o nome o rosto
a vida
não contas a estória
lês do livro a capa

as cores da ria não dizem tudo das suas gentes
(torreira; cirandar)
pouco

e o maria de fátima desliza nas ondas
peço pouco
não sei sequer pedir
estranham-me por isso
uns livros
algum tempo
comida quanto baste
sem banquete ser
sei-me pouco
pouco peço

arribar só é fácil para quem não sabe
(torreira; companha do marco; 2015)
dos conhecidos

chamam-lhe recachia
há os do não
há os do sim
há os do talvez
teme os últimos

há recachia na ria
(torreira; regata da ria; 2010)
ser feliz aqui

caminho pelo olhar
e sonho
ignoro o por detrás
e fico-me
pela superfície vazia
onde tudo
pode ser o que eu
quiser
despedi da paisagem
o ruído
das gentes e seus dramas
esqueci
o indesejável saber da
injustiça
inventei ser feliz aqui

(torreira; porto de pesca)
a história não é estória

longe e perto
tenho o tamanho
que tenho
nem mais nem menos
saber o meu tamanho
é saber de mim
é essa a minha grandeza
não te temo por maior
que grande é o vendaval
e passa e morre e foi
digo-te que se quiser
terei o tamanho do tamanho
que tu tens e isso
faz de ti
alguém do meu tamanho
e de mim
um outro muito maior que tu
é com essa ilusão
de falsa grandeza
que do nosso prato
comes sentado à mesa
eu sei que vamos crescer
e papas na tua cabeça
comeremos mais uma vez
a história não é estória

é na meta que se vê o tamanho
(torreira; regata do s. paio; 2014)