há dias assim

a ceifa da ria
não morras já
deixa que as gaivinas
levantem voo
depois
depois parte

seara salgada esta
(torreira; apanha de ameijoa japónica)
há dias assim

a ceifa da ria
não morras já
deixa que as gaivinas
levantem voo
depois
depois parte

seara salgada esta
(torreira; apanha de ameijoa japónica)
da raiva

podem os homens
vencer o mar
ser o barco a casa
pode o mar calar
os homens
ouvir as mulheres
pode esta raiva
que trago no peito
salgar-me os olhos
enquanto pergunto
porquê
por muito pouco
que saibas do mar
saberás sempre
menos dos homens
fica a raiva a rugir
nas manhãs dos dias
breve anoitecidos
amarelecida espuma

(torreira; companha do marco; 2013)
para os que longe

dói-me o que sei
e não vejo
falo da saudade

(murtosa; regata do bico; 2008)
da insónia

raiva de não escrever
de olhos fechados
as palavras que me assaltam
noite dentro e fogem
sem deixar mais
que a lembrança
de terem sido
tudo parecia tão claro

(torreira; o alar da solheira)
até um dia

o stalone agarra o calão e o ti américo desata o nó que prende a corda do arinque do reçoeiro
maiores que o mar
efémeros como a espuma
enterram na areia
os pés
espero os dias de sol
encharcados de sal
para os reencontrar
um dia

(torreira; companha do marco; 2012)
mensagem de ano novo
(aos donos da pátria dos moliceiros)

tão pouco fazem
depois de tanto terem dito
que chego a pensar que são
outros neles

o moliceiro “alfredo rebelo”
(murtosa, regata do bico; 2006)
sem tempo

no meu é que era
tudo tem o seu
foi mesmo a
falta-me sempre
não sei se chega a
já não era sem
veio fora de
tanto sem te ver
estou a matar o
acabou-se o

(torreira; regata da bateiras à vela; s. paio; 2012)
contar porquê

quantos anos? não os contei (o carregar das redes para secarem ao sol)
começa um ano
continua o tempo
por sobre a areia
nem pegadas
que o vento
das gentes pó
a areia o mar
a memória
fica o retrato a falar
do que perdi a conta
tempo houve em que
era assim
ainda é ainda é ainda
não conto nada
registo o que posso
(torreira; século XX)
UM BOM ANO DE 2016
sobreviver

o moliceiro “dos netos” do ti abílio carteirista
de velas pandas os dias
seguiram o seu caminho
barcos ante nossos olhos
espanto de ainda por cá
resistir teimoso à chamada
espantoso o ser ainda
um moliceiro voga na ria
quero deixar-vos um ror deles
a encher-vos os olhos
nada mais vos peço que
sonheis com muita força
só assim os moliceiros hão-de
sobreviver

a bandeira da pátria dos moliceiros
(murtosa; regata do bico; 2007)
eu só só eu

foram-se os dias
foram-se amigos
laços afectos
pedaços de mim
semeados
arrancados
fui-me sendo por aí
mais um mais um
menos que nada
menos que eu
menos
eu só
só eu

(torreira; corrida dos chinchorros; 2014)