os moliceiros têm vela (438)


amanhã

murtosa; regata do bico; 2009
 amanhã pode ser um dia
 longe
 
 quisera ser barco ir  
 com o vento
 abraçar as nuvens
 
 amanhã pode ser um dia  
 longe
 
 saibas tu ser barco  
 mas navegar
 nunca foi arte fácil
 
 amanhã pode ser um dia  
 longe
 
 vida de marinheiro é dura
 grande o mar  
 amanhã vamos navegar 

 hoje

crónicas da xávega (371)


era uma vez o abraço

praia da leirosa; carregar a rede; 2019
 um simples gesto
 de quatro braços feito
 solidários amigos
  
 tocam-se cotovelos
 tão pouco para tanta fome
 a morrer nos olhos
  
 um abraço um abraço
 quantos por dar
 
 abraçamos a vida
 nunca um abraço  
 doeu tanto 

a beleza do sal (115)


que fazer das palavras

morraceira; mexer; 2020
 que fazer das palavras
 se não o assassínio do silêncio
  
 que fazer das palavras
 se não a ferramenta da denúncia
  
 que fazer das palavras
 se não o dizer esta revolta hoje aqui
  
 que fazer das palavras
 se não servirem para derrubar o palco
 erguido pelo silêncio
 
 que fazer das palavras
 se as aprendi para as dar e serem mais
 
 só a conquista dá valor ao conquistado
 desprezadas são as ofertas
 
 que fazer das palavras
 se não usá-las para gritar quando necessário 

crónicas da xávega (370)


basta

xávega; arribar; torreira; 2016
 há tanto para dizer
 e são tão poucas as palavras
 
 resumo-me ao fazer
 ao saber que se quisermos
 faremos e seremos
 
 digo basta e tu sabes  
 que outra palavra por detrás
 
 digo basta e dói-me
 esta gente desiludida  
 a votar no engano  
 
 há tanto para dizer
 não basta escrever  
 não outra vez não
 
 basta
 
 

a memória dos dias 18012012


posso?

maravilha esta música
nas janelas escrita pela chuva

quando a água cai do céu
fico assim parada no tempo
de sentir tudo

vontade de mãos para além do vidro
onde a terra as chama

desejo de sentir no corpo
a escrita da chuva

nas poças de água
os pés a correrem sem mim

mãe
quando chove
apetece-me abrir a porta
e ir dançar ao som desta música
de água que o céu deixa cair

posso?

os moliceiros têm vela (436)


inocentes

ti abílio carteirista; cais do bico; 2019
 pedem-me que cale
 que não ligue
 
 denunciar é dar palco
 dizem e quedam-se
 no seu saber calado
 
 há a poesia a música
 o cinema o futebol
 há a cultura costas largas
 
 há o que não nos divide
 porque não é relevante
 há o silêncio que consente
  
 peço-lhes que falem  
 que digam o que pensam
 se existem além do pensar
  
 calados críticos de tudo
 aí estarão no fim do caminho
 limpos sorridentes e isentos
  
 acabados de nascer e ainda
 por lavar 

a beleza do sal (114)


é dia ainda

armazéns de lavos; carregar o dumper; 2019
 é dia ainda e já se ouve
 o uivar do lobo
  
 a memória acende
 nos lábios as palavras
 guardadas quase
 esquecidas necessárias
 
 é dia ainda e já se sente
 o fedor da besta
  
 junta-se na praça a alcateia
 vindos de longe
 respondem ao chamado
 sedentos de carniça
  
 é dia ainda e já sabemos
 que o uivo o fedor
 mau prenúncio são
  
 ao engano quantos irão