crónicas da xávega (303)


 

alguns são meus amigos
0 ahcravo_Imagem 249 mira companha sra dos aflitos s

o carregar do saco 

 
não são capa de revista
não têm nome
são apenas um número
na estatística
 
sabe-se deles quando
à mesa peixe fresco
da costa fala do verão
 
são em fim de vida
o que no início alguns
voltam por ser pouca
a paga por tantos anos
parcas as reformas
 
deles só sei que
 
não são capa de revista
não têm nome
são apenas um número
na estatística
 
alguns são meus amigos
 
(praia de mira; 2009)

retratos de rua


0 ahcravo_Imagem 018 o fitas garreiada fig foz 2008

santo
santo santo santo
o dia em que acordo
e ainda me levanto
gosto muito de santa
apolónia e de são bento
embora entre campanhã
e oriente prefira a última
santo santo santo
é o depósito atestado
autonomia para duas
semanas duas santas
santo santo santo
és tu que me leste
sem te ter pedido tanto
(figueira da foz; 2008; “o fitas”)

 

os moliceiros têm vela (354)

os moliceiros têm vela (354)


o vazio
0 ahcrav_ DSC_6285 regata moliceiros shbw
 
nas linhas dos cadernos
de duas linhas
aprendíamos a fragilidade
das letras
 
o equilíbrio precário
da escrita da vida
aprisionadas
 
escrevo há muito em
folhas lisas
simulando o plasma
onde agora
 
o vazio começa
no vazio
0 ahcravo_DSC_6285 regata moliceiros sh
 
(torreira; regata da ria; 2009)
escuta

escuta


0 ahcravo_DSC02634 bw

luis ferreira na peça “monólogo do diabo” de antónio tavares

escuta o vento
no fremir das folhas
das árvores nuas
 
entre luz e sombra
a fronteira é ténue
 
muitos sucumbem
ao peso da luz
e caem na sombra
 
nas árvores nuas
assobia o vento
por entre os ramos
 
ténue a fronteira
entre sombra e luz
 
(figueira da foz; 06 abril 2019)
postais da ria (297)

postais da ria (297)


por hoje chega

0 ahcravo_DSC_2562

a carregar berbigão

não sei se o rio
se fez mar ou o inverso
 
não sei se é no infinito
que duas rectas paralelas
se encontram
nunca falei com o infinito
 
a fé não salva mas alivia
 
não sei se conheço
o homem ou a sua aproximação
 
o vento já não me despenteia
porque estou careca
 
apaixonei-me pelas tuas palavras
 
por hoje chega
 

(torreira; 2017)

para walmir chagas


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também eu não sei
que coisa é o homem
carlos
comungar esta ignorância
com um homem como você
é um privilégio
 
mas eu sinto
quando um homem
tem assunto
 
como se escreve no português
de vocês que eu vou usar aqui
 
eu senti que walmir tinha assunto
você devia ter conhecido walmir
carlos
 
você devia
mas você não conheceu
digo eu
e sobrou para mim
falar de walmir
 
olhe melhor pensando
deixemos que seja walmir
a falar de walmir
 
ele fala sem palavras
precisa ver
 
(sam; figueira da foz; 15 março 2019)

 

abraço-vos


abraço-vos

00 ahcravo_DSC6405_walmir

walmir chagas o homem instrumento

escrevo abraço
com a de abril
começo de
afonso do zeca
 
abraço a geografia
os afectos
as palavras
os cravos de abril
 
quem
abraço neste abraço
sente
 
os mais são só
isso
 
escrevo abraço
abraço abraço
 
e abraço-vos
porque hoje
passei a tarde
convosco
 
(figueira da foz; sam; março, 2019)
 
para o beto, walmir, geraldo, clarisse e bruno