memória_09032011
a memória dos dias

maria murta e manuela caldinho
(torreira; 2006)
crónicas da xávega (337)
sonho

torreira; 2015
encontro-me comigo
nas palavras que escrevo
sonho de ser um tu tantos
naquilo que digo
vou por aí cheio de mim
na intimidade do mundo
apenas mais um
cubro-me de tempo e adormeço
na areia quente rente ao mar
sonho
a beleza do sal (78)
palavras salgadas

guardas em arcas as palavras
em sal
à moda antiga de antes de ti
mas o sal não conserva as palavras
digo-te eu que de outro tempo
um dia lembrar-te-ás das palavras
guardadas
das que não disseste
do silêncio
irás à arca em sua busca
pensando usá-las
mas não terás o destinatário
para quem as guardaste
se as guardaste
o tempo corrói tudo
até o presente
que não usaste
e então
talvez seja sal o que
pelo rosto te escorre
sal nada mais
sem palavras
a temperar o silêncio
o não dito
(armazéns de lavos; mexer; 2019)
postais da ria (345)
safei

torreira; 2018
safei os dias
malhas de uma
rede diversa
por entre os dedos
gotículas de água salgadas
lágrimas sorrisos
dizem a memória
contam-me
poesia de sempre e para sempre

Luís Machado encerrou a exposição “Escritores, Memórias e Olhares” de Fernando Bento, com um recital de poesia
A exposição de fotografia de Fernando Bento “Escritores, Memórias e Olhares”, patente na sala 3 do Centro de Artes e Espectáculos desde 8 de novembro de 2019, constituída por 25 fotografias a preto e branco de diversos escritores nacionais, encerra ao público dia 02 de fevereiro com a realização do recital “Poesia de Sempre para Sempre”.
O recital realizou-se pelas 15h30, no Auditório Municipal, dinamizado pelo escritor Luís Machado, secretário-geral da Associação Portuguesa de Escritores e curador da exposição.
A iniciativa contará também com a participação de Rui de Matos, que fará o acompanhamento musical da declamação dos poemas, da autoria de Fernando Pessoa e de outros grandes nomes da literatura portuguesa.
Sobre a exposição

Fotografia de Fernando Bento
“Estes rostos de escritores, propostos por Fernando Bento, suscitam um encadear de ideias e até um eternizar de memórias. Por trás de uma fisionomia humana há sempre uma história e uma memória. Se pensarmos assim, percebemos que o fotógrafo de que falamos não se limita a fixar e a reproduzir imagens. Ele capta, para além da máscara, a expressão dos gestos, revelando sentimentos e identificando emoções.”
(informação retirada da página do município da figueira da foz)
o registo
memórias da minha coimbra (VIII)
o kim dos ossos

coimbra; praça do comércio; 2009
o tempo da fast food ainda não tinha chegado a coimbra. a tasca do quim, como era conhecida, era famosa pelos ossos de espinhaço de porco cozidos e condimentados à moda do quim.
foi a última tasca de coimbra. tinha duas portas de entrada: a da esquerda dava para a mercearia e da direita, uma porta de duas folhas de vai e vem, levava-nos para o interior da tasca. meia dúzia de mesas, os pipos de encostados à parede com as torneiras prontas a debitar.
começava-se normalmente com uns cricos (berbigões) abertos à quim e depois continuava-se com os famosos ossos e outros petiscos. cada um servia-se do vinho dos barris que ficavam atrás da mesa e ia marcando com um traço cada copo que bebia.
no fim éramos nós, ainda somos apesar de já não ser tasca, que dizíamos o que tínhamos consumido e assim nascia a conta.
quantas noites de violas e guitarras e poesia …..
na tasca do quim não se cantava fado de coimbra, cantava-se zeca afonso, adriano, fado de lisboa e dizia-se poesia.
conviviam estudantes, trabalhadores, licenciados…. era um sitio à parte na cena coimbrã.
encastrada na parede exterior havia uma pedra que servia de banco para duas pessoas, um belo dia sentei-me ao lado de um velhote que, pensativo, seguia com os olhos as jovens estudantes que passavam. de repente volta-se para mim e diz:
– sabe o que me custa? um gajo envelhece e elas continuam a passar sempre novas.
era assim que se aprendia a estar vivo na tasca do quim
crónicas da xávega (336)
da obra

praia da leirosa; 2019
toda a obra
é a última obra
toda a obra
é a primeira obra
toda a obra
é única
“No início a minha mãe” de rui miguel fragas
os moliceiros têm vela (390)
a memória

torreira; regata do s. paio; 2010
palavra
a palavra
construo os dias
assim ergo
a casa
do tempo
aí habita
a memória

torreira; regata do s. paio; 2010