postais da ria (259)


vêm devagar

vêm devagar os amigos
chegam pela mão da memória
por vezes tarde demais

partem depressa os amigos
olho-os como se ainda
mas é tarde muito tarde

sei que partiram alguns
cada dia mais
enquanto eu vou resistindo

enquanto passear pelos dias
levo-os pela mão
e deixo-os convosco à conversa

nada mais posso fazer

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

o falecido manuel vieira (valas)

(murtosa; regata do bico; 2007)

 

postais da ria (258)


é tarde

enevoado tempo
o das memórias

acordo e recordo
não consigo
esquecer
o que me lembra
ao adormecer

sofro de memórias
de violentados dias
fracas palavras
pobres gestos

vem vazia a rede
vem vazia
vem

é tarde

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alar com salvador rilho (chalana)

(torreira; alar da solheira; 2010)

 

crónicas da xávega (260)


cacilda

quantos instantes tem o ano
cacilda
quantos anos um momento

perdi a noção do tempo
cacilda
voou como as gaivotas
em torno de ti e são muitas

o tempo tem muitos tempos
cacilda
é enorme o tempo dos amigos
o teu tempo

há quanto tempo te conheço
não sei

no esvoaçar dos dias salgados
perdi a noção do tempo
é infinito todo o instante
se ao pé do mar dos amigos

cacilda
neste instante cabem muitos anos

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cacilda brandão (gamelas), mulher de mar e da maior família da torreira, os gamelas

(torreira; 2011)

 

crónicas da xávega (259)


mergulho no tempo

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tudo o que sou
fui para ser

gostar do que sou hoje
é aceitar o que fui
no tempo que me coube

há bois na praia
gestos e fazeres recriados
memória viva

olhar o ontem
é ver mais além
é ser de novo

mergulho no tempo
refresco-me de mim

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(torreira; recriação da xávega;2013

os moliceiros têm vela (313)


fazer o futuro

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o “Doroteia Verónica” ainda velejava

presa nas malhas
do corpo
esta coisa pensar

recolher-me na
incerteza dos dias

reviver os que foram
no que é
no que me deixaram
para que deixe

viver hoje
é preservar o ontem
fazer o futuro

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o “Doroteia Verónica” ainda velejava

(regata da ria; 2010)

dia 30 de junho há regata

os moliceiros têm vela (312)


memória de um dia

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falarão dos barcos
dirão moliceiros

ninguém falará de ti
sequer saberão o teu nome

pouco te importa
hoje tens tempo de antena
roubado que seja
mas tens e sorris e falas
não sabes de amanhã
ignoras o ontem

os moliceiros digo
são aves frágeis sem asas

e tu sabes
porque lhes cortaste
as últimas

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(regata da ria ; 2010)

rui miguel fragas no dia do autor português, 2018


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Rui Miguel Fragas, pseudónimo de António Rui Féteira, nasceu em São Miguel de Poiares (Coimbra).

Licenciou-se em filosofia na Universidade de Coimbra.

É professor na escola secundária Dr. Bernardino Machado, na Figueira da Foz. Actor fundador do “Pateo das Galinhas” – grupo de teatro experimental da Figueira da Foz. Publicou alguns poemas e contos nas revistas Alma Azul, Aeroplano e InComunidade.

Tem 4 livros de poesia publicados: “O Nome das árvores” (Poética Edições, 2014), “Não sei se o vento” (Poética Edições, 2015) “O rumor das máquinas” (UA Editora,Universidade de Aveiro, IV Prémio Literário Aldónio Gomes, 2015) e “No Húmus”, em 2017 é o primeiro em edição de autor . Participou na antologia de poesia “As Vozes de Isaque, Derivações Poéticas a partir da obra O Último Poeta” (Poética Edições, 2016). Em 2017 venceu a VII edição do Concurso de Poesia na Biblioteca (Condeixa-a-Nova) e publicou uma antologia de contos: “A última rodada” (Poética Edições, 2017).

No dia dia 22 de Maio de 2018, fez várias sessões de apresentação de autor, de que fica o registo da realizada na escola secundária Dr. Bernardino Machado, na Figueira da Foz: