é tarde
é tarde
é sempre tarde
depois de

(morraceira; rer; 2016)
é tarde
é tarde
é sempre tarde
depois de

(morraceira; rer; 2016)
“Os intérpretes de vidas
…. Até que ponto podemos fiar-nos nos nossos amigos e conhecidos e sócios, nos nossos amores, nos nossos pais e nos nossos filhos? Quais as suas tentações e debilidades, ou o seu grau de lealdade e a sua fortaleza? …. E mais ainda: podemos prever que amigos vão virar-nos as costas um dia e converter-se em nossos inimigos? …. Podemos fiar-nos em nós, em que não seremos nós que mudaremos e nos viraremos e atraiçoaremos, que invejaremos um dia quem hoje mais amamos e não poderemos suportar o seu contacto nem a sua presença, e decidiremos reger-nos só pelo nosso ressentimento? …… “
(in Javier Marias, “O teu rosto amanhã”, 3º volume, “ Veneno e sombra e adeus” )

depois de muita luta o barco ganhou o mar e fez o lanço
(praia de mira; 2010)

depois de muita luta o barco ganhou o mar e fez o lanço
de véspera

de véspera
fazer as malas
as despedidas
pôr o bacalhau de molho
de véspera
fazer a preparação
para o exame do dia seguinte
matar o perú
de véspera
a ansiedade porque
tentar dormir para
dizem de mim que cedo chego
de véspera
ninguém morre
ninguém nasce
de véspera
nem estas palavras

(praia de buarcos; 2016)
é urgente
é urgente
libertar os dias
desamarrá-los de afectos
com data marcada
manifestação despótica
de homens incompletos
mais frios uns
maiores outros
chuvosos secos
mas dias todos
é urgente
libertar os afectos
desamarrá-los de datas
é urgente ser hoje

(praia de mira; 2009)
‘miga
hoje no mercado de buarcos
fui abraçado por uma palavra
‘miga
conheci-a em setúbal
no bairro das fontaínhas
onde murtoseiros pescadores
quando a ouço regresso
aos tempos de eu menino
às vozes que pela ladeira
‘miga
diziam antes de começar
qualquer conversa
tempo em que todos
eram amigos e camaradas
por isso entre pescadores
‘miga
mais que a ouvir senti-a
há palavras assim
que nos chegam como se
um abraço

a bela e o jim cirandam berbigão
(torreira; cirandar)
obrigado fernando

ando como se não soubesse
de outro caminho
o mar ao fundo os livros à mão
é dia de feira de rever amigos
da tertúlia das velharias
do fernando e da suméria onde
nunca fui como a quase tudo
as lombadas alinhadas
por temas e preços
bons os do fernando
patrono dos leitores ávidos
e pouco abonados
as primeiras as segundas
as que lhe calharam em sorte
os amigos agradecem
a atenção que lhes faz sempre
e são amigos todos
os que lhe compram livros
é sábado e eu não sei
se ainda há sábados para mim
todos os dias são domingo
para um reformado
ando como se não soubesse
de outro caminho
o mar ao fundo os livros à mão
comprei um livro
extraordinário
obrigado fernando

(buarcos, feira das velharias)
ilusão

só se perde
o que nunca se teve

(s. salvador; regata do bico; 2016)
das crianças
sei da inocência das crianças
por isso não estranhes
que as ame
são minhas irmãs todas

rer
(armazéns de lavos; rer; 2017)
olha as mãos
no princípio eram as mãos
ferramentas únicas
alfabeto de gestos e sinais
do dizer ao fazer
tudo por elas era
vê como falam as mãos
como quebram o silêncio
atenta nelas e ouve
encontrarás nas mãos as respostas
para as perguntas que não fizeste
nelas tudo é claro e transparente
olha as mãos
como se um outro corpo
e não o são

(torreira; 2016)
até um dia

por sob a claridade
habitam o silêncio
o obscuro domínio
(diria eugénio)
refúgio de
ratos e similares
alimentam-se bem
do outro e do seu esforço
caminham seguros
mandam e desmandam
mais que fazer
fazem-se
até um dia

(torreira, cirandar, 2016)