às mulheres da xávega
escrevo mulher
com éme de mar

a aurora e o aparelhar do saco
(torreira; 2016)
às mulheres da xávega
escrevo mulher
com éme de mar

a aurora e o aparelhar do saco
(torreira; 2016)
a mão de um amigo

a mão do ti alfredo fareja (falecido)
a mão de um amigo
será sempre
a mão de um amigo
mesmo se dela
a imagem
apenas
a imagem
opera na memória
a viagem no tempo
solares os dias ainda
os homens íntegros
inteiros
assim me acompanho
em dias de mais solidão
(torreira; 2006)

o zé pedro e o léo preparam a bateira para a regata
há uma criança
dentro de mim
é ela que te sorri

(torreira; s. paio; 2017)
a matemática da vida
(para o ti manel valas)

o moliceiro “manuel silva” do ti manel valas que, com o o zé pedro a timoneiro, ficou em 2º lugar
somar tudo
estar vivo é isso
a matemática
é simples
ao final da soma
chamam total
e subtraem-te

o moliceiro “manuel silva” do ti manel valas que, com o o zé pedro a timoneiro, ficou em 2º lugar
(regata da ria; 2013)
quem safa as redes, safa a vida?
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
a escrita dos dias

reter
os gestos os rostos
as fainas os falares
as pegadas os rastos
não os meus não
por entre os dedos
o norte corre
a memória com ele
ficam as palavras
as imagens
um tempo descrito

(regata da ria; 2010)

c.p. 3870-155

o mar não é falso
é da sua natureza imprevisível ser
falsos serão os que
quando deles se espera que homens
coisa de fraco valor se revelam
por tão pouco se venderem

(torreira; 2016)
escrevo-me aqui
a certidão de nascimento
diz onde nasci nada mais
tenho um endereço
uma rua um número de porta
um andar um espaço
onde correio recebo e durmo
escrevo minha gente
e encontro-a em qualquer geografia
se de injustiça vítimas forem
a minha terra é uma aldeia
onde de centenárias raízes
bebo a água dos dias por haver
escrevo-me aqui

(torreira; s. paio; 2017)
contradições aparentes
morreu preso nas malhas
dos afectos
dos afectos que lhe tinham
alimentado os dias
não há contradição nisto
há em tudo

(torreira; reparar rede)
recriação de um lanço de xávega com bois

em 2001, a companha do joão da calada, na torreira, fez a última safra com juntas de bois. foi a última praia onde se viram bois a trabalhar no mar.
depois dessa data houve, que eu tenha registado, sabido e estado presente, duas recriações na vagueira, outras duas em espinho e uma na torreira, em 22 de setembro de 2013.
recordo que em 1852 foi promulgado o “Regulamento para as companhas de pesca da costa da Torreira”, não conheço mais nenhuma praia que a tal tenha tido direito. porque seria? talvez porque a torreira, à época era a praia em que mais companhas trabalhavam. era a capital da xávega.
era……
em 2013, ano de eleições autárquicas, o executivo da câmara municipal da murtosa decidiu, no dia 22 de setembro, levar a cabo uma recriação de um lanço de xávega – o mais bem conseguido de todos aqueles a que assisti.
quem conhece a torreira sabe que depois do s. paio começa o despovoamento e só volta a haver algum movimento ao fim de semana e retoma no verão do ano seguinte. pois no dia 22 de setembro de 2013 parecia, não só pelo tempo que fazia, que era verão outra vez: o areal estava cheio de gente que tinha vindo para assistir à recriação.
de então para cá, nem mais uma. a autarquia publicou um livro sobre o acontecimento e pronto.
nas festas do s. paio não há tradição de recriação de um lanço de xávega, os eventos tradicionais são na ria – regatas de moliceiros e bateiras à vela e corrida de chinchorros – fica para o mar a modernidade – cerveja, shots, djs ….. entre ria e mar, as noites no largo da varina.
nada tenho contra a modernidade no mar nem é, aqui e agora, o momento de as analisar, mas a verdade é que há que rentabilizar os investimentos.
mas ….
será que, uma vez que a autarquia não tem apoiado uma recriação anual, os privados – restaurantes, bares de praia e comércio em geral – , não poderiam financiar a recriação? ao fim e ao cabo lucrariam com a sua realização, provavelmente mais do que investiriam nela – porque é de investimento que falo e não de outra coisa.
não basta defender que a iniciativa privada é o motor da economia, é preciso prová-lo na prática. se o estado, neste caso a autarquia, não avança com o capital, porque é que os que privados não tomam a inciativa a seu cargo?
a iniciativa, a iniciativa, a iniciativa …. a iniciativa?
um ano tentavam, digo eu, se não desse tinham mostrado do que eram capazes e talvez a autarquia vendo o que tinham feito sem ela, viesse em vosso apoio.
ficam dois ditados populares: “quem não arrisca não petisca” e “quem tem barriga para caldos não vai a casamentos”.
será que a torreira já foi ou quer continuar a ser?
(torreira; 22 de setembro de 2013