torreira, o massa canta na ti rosa de avanca, um vídeo muito difícil de fazer.
o artista tem preço muito alto para as posses de quem tem uma câmara na mão
torreira, o massa canta na ti rosa de avanca, um vídeo muito difícil de fazer.
o artista tem preço muito alto para as posses de quem tem uma câmara na mão
emília russa e olívia borras, mulheres da torreira, peixeiras desde há muito – são estes os seus pregões.
haja peixe, que mulheres a torreira tem

a safar caranguejo, vejam-se as mãos comidas de sal
actualmente na torreira a pesca aos chocos e aos linguados faz-se utilizando a arte “solheira”, cuja estrutura se encontra legislada nos seguintes termos:
“descrição- rede de emalhar de três panos (tresmalho) fundeada
características:
– comprimento máximo da rede 500m
– altura máxima da rede – 60cm
– malhagem mínima do pano central – 100mm” (já reduzida para 80mm)
o nome da arte advém do facto de ter servido em tempos para a pesca da solha, peixe muito abundante na ria e que com o desaparecimento do moliço, se tornou espécie rara.
na torreira à totalidade da rede chama-se “andar” e às porções de que se compõe “rede”.
cada “rede”, ou “ração”, ou “caçada”, custa 67 euros, sendo necessária para construir um “andar”, pelo menos 16 redes, ou seja, um “andar” custa 1.072 euros.
para trabalhar é necessária uma bateira, com a seguinte estrutura:
– 12 cavernas
– 7,5 m de comprimento
– 1,80m de boca
– 45cm de pontal
a bateira custa cerca de 3.000 euros e é accionada por um motor de 8 cv, no valor de cerca de 2.500 euros.
ao conjunto de apetrechos com que uma bateira deve ser dotada para passar na vistoria, chama-se “parlamenta” e custa cerca de 500 euros.
anualmente é necessário proceder a uma vistoria, que custa cerca de 80 euros, para efeitos de renovação de licença, a qual só é renovada se o pescador tiver declarado o mínimo de 5.000 euros de pescado na lota.
ou seja, e para concluir, somando as parcelas, os custos fixos para o exercício da arte, orçam em 7.150 euros .”
durante o ano de 2010 fui várias vezes ao rio largar e alar redes com pescadores da torreira, de alguma idas ficaram registos fotográficos, doutras vídeos. não houve um pescador a quem tenha pedido para ir com ele, que me desse uma nega, por isso é a todos os pescadores da torreira que dedico estes registos.
os momentos mais dolorosos e custosos são o alar e o safar das redes, é desses momentos que tratam os vídeos que aqui mostro.
as redes são largadas no fim da enchente e aladas, em princípio, no início da vazante. a bateira fica “atravessada” e, para não ser arrastada pela maré, é lançado à ria, do lado de “cima”, um peso ao qual fica amarrada.
o esforço da alagem é notório nos registos.
em média as redes ficam cerca de uma hora na ria. podem ficar mais, depende do pescador, do local onde largar, se há muitas algas na ria ou o sítio é rico em peixe (por costume) mas também em caranguejo.
por vezes uma hora na água, dá várias a safar. se for caranguejo então são as ferradelas, os rasganços nas redes e trabalho dobrado.
não é invulgar uma hora na ria, uma tarde a safar
(nota : procurei nalguns destes registos não fazer corte de tempos que “parecem” mortos. fica à responsabilidade de quem o vir, segundo a sua sensibilidade e ligação à ria, fazer os cortes que achar por bem – acelerando, por exemplo, durante alguns momentos a passagem do vídeo e voltando ao normal quando o entender.
que corte quem vê e não quem faz é o meu critério neste tipo de registos.)
(torreira; 2010)
mulheres da torreira

teresa castelhana e a filha carla safam redes
elas são donas de casa
elas vão ao rio
elas safam redes
elas parem filhos
elas lavam roupa
elas vendem peixe
elas são mariscadoras
elas são arraisas
elas cirandam
elas escolhem
elas cozinham
elas cosem roupa
elas fazem as contas
elas trabalham no mar
elas vão às compras
elas esperam que eles cheguem
da safra no mar alto
elas choram
elas riem
elas brincam
elas sofrem
elas estão sempre
elas são a camarada
(torreira)
(torreira)
carta

quando o barco é o camarada
sabes a quanto vendem os pescadores
o quilo de choco?
de linguado?
de berbigão?
de ameijoa?
de mexilhão?
de linguado?
sabes quantas horas de ria
para apanhar nunca se sabe quanto
embora se saiba a quanto?
quantas horas a safar redes?
quantos euros em gasolina?
quantas idas à fisiatria?
quantos dias de férias?
quanto ao fim do ano?
procura as respostas
encontrarás o labor
por detrás das bateiras adormecidas
e farás dos teus postais
um hino aos homens e às mulheres
que todos os dias
todas as semanas todo o ano
deixam na ria o corpo
pedaço a pedaço
se mal pagos são
pelo que do corpo lhes sai
sejas tu a cantá-los
quando pela madrugada
ou ao fim do dia
lhes fotografas os barcos
e
nos enches de espanto
(torreira; 2016)
se

depois de arribar
apanhou o barco?
mostre!
pedem pouco os homens
que são tanto
assim caminham pelos dias
desconhecendo-se
sabendo apenas que
não sabem mais nada
nem eu sei
se

(torreira; 2016)
o meu amigo ti zé rebeço

o ti zé sempre
que idade tem um homem
quando é um homem de todas as idades?
o que pesa aos ombros de um homem
quando o que carrega é a própria vida?
um mastro de moliceiro
foi tronco de árvore
é hoje a raiz de uma gente
onde a bandeira de um povo
ergue a voz de ser ainda
amanhã ti zé
amanhã iremos sempre à ria
seremos todos os que já foram
todos os que hão-de ser
sabendo que aqui
o moliço foi rei
e os homens quando falavam
empenhavam a palavra
ainda os há ti zé
ainda os há
os de palavra aqui
(regata do bico; 2016)
o vídeo da regata
(todos os anos no primeiro fim de semana de agosto realiza-se na murtosa, no cais do bico, a festa do emigrante.
o ponto alto é no domingo, depois de almoço, a regata de moliceiros. sempre a festa maior da ria.
este vídeo, mais um registo para memória futura, foi feito com a câmara colocada na bica da proa do moliceiro “A. Rendeiro” do ti zé rebeço, moliceiro dos velhos tempos e que bebe na ria a vida de cada dia, aos 76 anos idade. é seu camarada, nos últimos anos, manuel antão.
procurei neste registo não fazer corte de tempos que “parecem” mortos, fica à responsabilidade de quem o vir, segundo a sua sensibilidade e ligação à ria, fazer os cortes que achar por bem – acelerando, por exemplo, durante alguns momentos a passagem do vídeo e voltando ao normal quando o entender.
que corte quem vê e não quem faz é o meu critério neste tipo de registos.)
a maldição da memória

todos os dias
me lembro
todos os dias
(morraceira; 2016)