os moliceiros têm vela (279)


eu tenho um sonho

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como os barcos
assim fossem os homens
não os que neles
que maiores ainda são

dessem-se as mãos
as vontades os quereres
fizessem-se actos
as palavras ditas semeadas
esparsas solitárias

soubessem-se moliceiros
todos
diriam em voz de se ouvir

“somos esta terra
a sua memória o seu futuro
merecemos mais”

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(murtosa; regata do bico; 2017)

crónicas da xávega (212)


destino de pescador

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à memória de cipriano brandão (gamelas)

não têm nome
são pescadores
só o mar a areia e o norte
os conhecem

quando por feitos
direito tiveram
a nome e o publicaram
a terra esqueceu-os

partem sempre um dia
humanos que são
perdem-se no nevoeiro
que sobre eles lançam

aqui estão todos
os que foram
os que ainda são
os de amanhã

não têm nome
não sei se o terão

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à memória de cipriano brandão (gamelas)

(torreira; 2016)

 

morreu o meu amigo cipriano


 

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o cipriano talvez há vinte anos, mas sempre hoje, para sempre

sexta-feira 6 de outubro
um amigo
um amigo de muitos anos
um homem do mar
da ria da torreira
um homem

partiu cedo demais

deixou um buraco
nos dias por vir

chama-se cipriano
chamar-se-á sempre
cipriano brandão (gamelas)

o abraço que lhe dou hoje
dei-lho sempre
há muitos anos que lho dava
que o recebia

os amigos
só partem quando nós também

cipriano
ficas comigo

a beleza do sal (20)


não há ciências exactas

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rer

exacto o que vejo
exacto o que sinto
exactos estes dias
por onde arrasto o corpo

não há ciências exactas

exacto o momento
em que escrevo a dor
exacto o sorriso
no rosto da criança
exacto estar aqui ainda
exacta a lágrima

exactas estas palavras
toma-as e faz com elas
o exacto instante
em que tudo é possível

eu vou por aí
em busca de outro final

(armazéns de lavos; rer; 2017)

joaquim basílio morreu hoje


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morreu hoje joaquim basílio, o “mendigo basilius” das feiras medievais.

quem o conheceu sabe da grandeza do homem e da valia do artista, as palavras são pequenas para homens como ele.

há certamente uma feira medieval à espera dele onde quer que esteja.

um abraço, amigo

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(feira medieval de arzila; 2015)