quando tudo arde

achegar
quando tudo arde
salgam-se as terras
de cinzas
a beleza do sal
é memória
de dias solares
límpidos
toma-a
(armazéns de lavos; figueira da foz; 2017)
quando tudo arde

achegar
quando tudo arde
salgam-se as terras
de cinzas
a beleza do sal
é memória
de dias solares
límpidos
toma-a
(armazéns de lavos; figueira da foz; 2017)
eu tenho um sonho

como os barcos
assim fossem os homens
não os que neles
que maiores ainda são
dessem-se as mãos
as vontades os quereres
fizessem-se actos
as palavras ditas semeadas
esparsas solitárias
soubessem-se moliceiros
todos
diriam em voz de se ouvir
“somos esta terra
a sua memória o seu futuro
merecemos mais”

(murtosa; regata do bico; 2017)
destino de pescador

à memória de cipriano brandão (gamelas)
não têm nome
são pescadores
só o mar a areia e o norte
os conhecem
quando por feitos
direito tiveram
a nome e o publicaram
a terra esqueceu-os
partem sempre um dia
humanos que são
perdem-se no nevoeiro
que sobre eles lançam
aqui estão todos
os que foram
os que ainda são
os de amanhã
não têm nome
não sei se o terão

à memória de cipriano brandão (gamelas)
(torreira; 2016)
o homem

foto de 2010
as palavras poucas
a ironia fina
as convicções
o saber ser
o estar sempre
o dar o rosto
os braços abertos
as mãos de dar
o homem
(torreira)

o cipriano talvez há vinte anos, mas sempre hoje, para sempre
sexta-feira 6 de outubro
um amigo
um amigo de muitos anos
um homem do mar
da ria da torreira
um homem
partiu cedo demais
deixou um buraco
nos dias por vir
chama-se cipriano
chamar-se-á sempre
cipriano brandão (gamelas)
o abraço que lhe dou hoje
dei-lho sempre
há muitos anos que lho dava
que o recebia
os amigos
só partem quando nós também
cipriano
ficas comigo
não há ciências exactas

rer
exacto o que vejo
exacto o que sinto
exactos estes dias
por onde arrasto o corpo
não há ciências exactas
exacto o momento
em que escrevo a dor
exacto o sorriso
no rosto da criança
exacto estar aqui ainda
exacta a lágrima
exactas estas palavras
toma-as e faz com elas
o exacto instante
em que tudo é possível
eu vou por aí
em busca de outro final
(armazéns de lavos; rer; 2017)

morreu hoje joaquim basílio, o “mendigo basilius” das feiras medievais.
quem o conheceu sabe da grandeza do homem e da valia do artista, as palavras são pequenas para homens como ele.
há certamente uma feira medieval à espera dele onde quer que esteja.
um abraço, amigo

(feira medieval de arzila; 2015)
da mãe e do filho

entre o filho da mãe
e a mãe do filho
é tudo uma questão
de gerações
se insulto o filho
é a mãe nele
no filho da mãe
(torreira; 2016)
a porta está aberta

nos braços a força
na vela a bandeira
na vontade o ainda
moliceiro sinto-o assim
branco e negro
belo em risco
à janela há
quem espreite
que entre
a porta está aberta

(torreira; s. paio; 2017)
eu sou

o meu tempo
é hoje
é ontem
o meu tempo
será amanhã
sem mim
eu sou no meu tempo

(torreira; porto de abrigo)