crónicas da xávega (208)


arrancaram-lhe as raízes

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arrancaram-lhe as raízes
picaram-lhe com finas agulhas
os órgãos de sentir
fizeram-no de pedra bruta
in sen sí vel

chorou encostado a uma parede
era de dia e havia gente na rua

sabias que se pode gelar de verão?

não lhe arrancaram a memória
nunca o conseguirão

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(torreira; 2013)

os moliceiros têm vela (269)


 

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moliceiros na ria
(porque sei que há futuro)

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recuso o fausto da celebração
da memória

recuso a homenagem póstuma
aos assassinados

e digo

sim ti abílio
se eles quiserem
se eles nos deixarem
se eles nos apoiarem de facto

vamos ter sempre
sempre ti abílio

moliceiros na ria

 

(regata do bico; 2010)

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mãos de mar (24)


o caminhar

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arribam as mangas

o caminhar
tudo te desvendará
por vezes será doloroso

segue sempre pelo lado do sol
rente à cal tudo se desenha

saberás então
se apenas sombra o homem

no pão a sardinha escorre
também a verdade no tempo

(torreira)

como caem as árvores


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1. ouvi o barulho da serra. levantei-me. vesti-me. peguei na máquina. aproximei-me e comecei a fotografar. que não podia. que tinha de sair. que me tiravam a máquina. semblantes carregados. rostos fechados. cercas encerradas de imediato.

afinal, só estavam a abater 3 árvores. só isso. porquê o medo? porquê? o que é que estava a fazer?

2. voltei mais tarde. de longe. equipado. fica o registo

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3.

a ordem

o homem
a mão
a serra

a ferida
o esticão
a morte

as árvores
dormem nas nuvens
os homens
quando acordarão?

crónicas da xávega (207)


a memória

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o carregar do saco seco na zorra

a memória escreve-se
na areia e vai com o vento

não há malhas que a prendam
e tudo flui somando-se dias aos dias
assim sempre mesmo já quando

saber-lhes os nomes hoje ainda
é mistério que não entendo

aceito
como aceitarei
o não os saber

sei que o tempo
corre numa praia
por onde passo
e já tanto passei

olho tudo com a sensação
de que estive onde estive
sempre de corpo inteiro

assim como não estarei

(torreira; 2016)

apelo de uma árvore


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aqui onde me vês
cresci para as nuvens
e para a terra
sou mais que ninguém
d’aqui

não tenho pernas
tenho raízes fundas
que me prendem

não tenho corpo
tenho tronco que te abriga
não tenho braços nem dedos
tenho ramos e folhas
que te fazem sombra
e te protegem da chuva mansa

não falo
não reclamo
não grito

espero que tu
que tens pernas braços dedos
e voz sejas agora
o que eu para ti fui

o abrigo
a defesa
o amigo

aqui
na rua joaquim sottomayor
onde marcaram quatro irmãs
para serem abatidas

não os deixes

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(figueira da foz; 21 de julho, 2017)

os moliceiros têm vela (268)


frema

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palavra da terra
das gentes
do serem dela
cheios alguns

deixo a frema
para que falem dela
e vejam
no homem a frema
de ser
e só assim continuar

o que é a frema
pergunto-vos

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(torreira; regata do s. paio; 2016)

o filme continua com

“o tempo do moliço”