
por onde andam que os não vejo?
escuto-me mais além
não oiço nada
parti-me sem saber

o tempo esse traidor
torreira; regata do s. paio; 2012)

por onde andam que os não vejo?
escuto-me mais além
não oiço nada
parti-me sem saber

o tempo esse traidor
torreira; regata do s. paio; 2012)

no dia 21 de fevereiro foi lançada a antologia “poemas da saúde e da doença” da autoria de josé fanha e pedro quintas, editada pela “lápis de memórias”, no auditório da editora sita no atrium sólum em coimbra.
a apresentação da obra, feita por laborinho lúcio, foi ela própria antológica, sendo de ouvir e reouvir atentamente.
para aguçar o apetite reproduzo o prefácio da autoria de um amigo da lisboa de há quase 45 anos, luís gamito:
“No dia em que escrevo este texto chegou a notícia do falecimento do neurologista Oliver Sacks por alguns descrito como “o poeta da medicina moderna”. Poesia, doença e a inevitável morte são as palavras-chave desta antologia habilmente organizada, no sentido artístico, de tal forma que o resultado obtido é em si mesmo poético.
Sendo a poesia uma vivência do ser livre ela é, em si mesma, algo saudável ainda que tenha como temática a doença. A poesia é sinal de vida sobretudo quando nos fala da morte ou da doença. Para quem a escreve e também para quem a lê ou escuta.
A descrição literal e conceptual do fenómeno poético é difícil, até mesmo impossível. Mas sentimos que é uma coisa que nos faz bem: o desfile de múltiplas e novas associações de ideias, de memórias que inevitavelmente habitam emoções e são habitadas por sentimentos.
Há expressões de vida que são poéticas e, como tal, construtivistas na incessante luta contra a morte. E, ipso facto, contra a doença. E o ser doente ou dolente? Existe na medicina atual uma definição caricatural: saudável é toda a pessoa que ainda não foi bem avaliada por um médico.
Então, se todos somos doentes, é natural que a universalidade do fenómeno suscite a atenção da poesia e dos poetas. A música magnifica o tom sentimental na sua linguagem poética mas a palavra escrita objetiva os conceitos, sugere, induz, deduz, magnifica a personalização.
Todas estas funções superiores do cérebro, quando dedicadas à elaboração intelectual àcerca da doença, perfilam-se em dois territórios não distintos entre si. Por um lado, a poesia escrita trabalha no âmbito inter-pessoal e social. Por outro, é um trabalho de gratificação pessoal do próprio autor podendo ser psicoterapêutica em si mesma nesse plano individual.
Assim, a poesia extrovertida quando lida ou ouvida pode fazer bem às pessoas quer trate o tema da doença ou o da saúde que afinal é sempre o mesmo: o de uma moral anti-ansiedade.
A ansiedade é própria do ser humano porque este é livre de poder ser autor do seu próprio sofrimento. Ou porque este sabe da existência da própria morte. A consciência da doença fá-lo aproximar-se dessa finitude que apenas algum tipo de religiosidade contraria.
A teoria do “poeta fingidor” que nos remete para a existência de “dor” na pessoa do poeta tem sido acompanhada pelos raciocínios de que para “criar” é necessário que o autor seja portador de uma qualquer perturbação psicológica. Ora, isto não está demonstrado.
Contudo, por uma razão de luta contra o estigma, é comum na Psiquiatria serem apontados sujeitos que são afetados por perturbação bipolar e que se destacaram como criadores geniais. Um exemplo citado é o de Tolstoi que só escrevia quando em fases depressivas na sua quinta de Yasnaia Polyanna. Na fase maníaca esbanjava dinheiro em Moscovo.
A elaboração cuidada de psicografias dos autores constantes desta antologia provavelmente encontraria, em alguns, sinais ou sintomas de alguma psicopatologia, mas o que interessa sobremaneira é a obra poética produzida, aquilo que encanta o leitor e o ajuda na saúde ou na doença. E é disso que todos necessitamos: fruirmos o prazer da novidade que a vida expressa, a surpresa que o insólito nos proporciona.
Há muitos anos já, o José Fanha contou-me que uns alunos seus foram em visita de estudo a uma fábrica. A camioneta na qual se deslocavam, por alguma razão, parou a meio do caminho e enquanto isso as crianças brincaram com uns caracóis que, lentos, permaneciam na berma da estrada. No dia seguinte, a professora de Português pediu aos alunos que fizessem uma redação sobre a visita à tal fábrica. Não esperava que a maioria deles olvidasse a usina e escrevesse apenas sobre os caracóis. Mas para as crianças a poesia não esteve na fábrica.
E por isso é isto o valor dos caracóis no qual Sacks também acreditou.
Luiz Gamito
Presidente do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos”
e o vídeo, possível, da sessão de lançamento
pão parco

safar as redes da solheira para a plataforma
no longe quem sabe
o futuro
um barco meses no alto
um salário nos dedos
rasgados pelo gelo
redes cordas espinhas
sonhar amanhã
um destino diverso deste
estagnado na beleza inútil
de onde um pão parco

fosse o peixe limo e boa a pescaria
(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)
pelo pão de cada dia

o mestre de redes e o saco
no chão estendido
um véu rendado
é manto que cobre
homem e mar unidos
na malha dos dias
onde sol sal areia e suor
se fundem num só corpo
por debaixo das nuvens
nos caminhos percorridos
pelo pão de cada dia

como se um véu de noiva o saco nas mãos do cebola
(torreira; companha do marco; 2010)
as maõs e os olhos do mestre das redes, o cebola, percorrem o saco em busca de rombos
é tarde

belíssimas aves estas
conheço os dias
pela inclinação do sol
sobre os ombros
há um sabor a sal
nos lábios
quando te digo
é tarde
e nada se repete

a ria sorri de as saber
(torreira; regata das bateiras à vela; 2010)
quisera-me lá

o arribar do calão do reçoeiro
haver ainda mar
por onde olhos
se perdem
se esvai
a raiva imensa
de saber que homens
lobos de homens
sou areia onde espuma
chega-me o sal aos olhos
navego para longe
quisera-me lá

o delmar à direita e o ti augusto de boné ao fundo à esquerda
(torreira; companha do marco; 2013)

andam cisnes na ria
sou-me estranho
não me sei
despido do outro

como são diferentes estes dias
(murtosa; regata do bico; 2009)

é dura a solidão do pão
hoje saí à rua nu
enquanto caminhava
fui-me vestindo
com tudo o que via
cheguei a casa
com roupa nova

ajoelhado na lama um homem, ou uma mulher, busca na lama o sustento
(torreira; apanha de bivalves)
na vela o vento

com duas velas
ser ainda árvore
depois da tempestade
deixar que o vento siga
a sua eterna viagem
fundas as raízes na terra
escrevem o teu nome
sorris sem saber como
nem para quem
mais forte o sorriso
que o vento
na vela

que beleza é esta?
(torreira; regata da ria; 2011)
há janelas

como não sonhar com vistas assim?
há janelas com ambição
de terem portas
serem casa
sem saberem de paredes
alicerces chão
há janelas que se inventam

quisera da minha janela as visse
(torreira; regata s. paio; 2014)