crónicas da xávega (220)


então farão postais

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vêm de longe as vozes
conheci algumas
respeitei muitas
conheci-os um pouco

homens mulheres
gente desta terra
de onde sempre
para o mar se partiu
e onde nem sempre
se regressou

ficou o mar
na areia varados
o barco e a arte
a companha renovada

até um dia
em que na praia vazia
deles só a areia
se lembrará

então farão postais

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(torreira; 2016)

mãos de mar (36)


a mão de um amigo

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

a mão do ti alfredo fareja (falecido)

a mão de um amigo
será sempre
a mão de um amigo

mesmo se dela
a imagem
apenas

a imagem
opera na memória
a viagem no tempo
solares os dias ainda
os homens íntegros
inteiros

assim me acompanho
em dias de mais solidão

(torreira; 2006)

 

 

os moliceiros têm vela (287)


a  matemática da vida
(para o ti manel valas)

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o moliceiro “manuel silva” do ti manel valas que, com o o zé pedro a timoneiro, ficou em 2º lugar

somar tudo
estar vivo é isso

a matemática
é simples

ao final da soma
chamam total

e subtraem-te

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o moliceiro “manuel silva” do ti manel valas que, com o o zé pedro a timoneiro, ficou em 2º lugar

(regata da ria; 2013)

 

postais da ria (230)


escrevo-me aqui

a certidão de nascimento
diz onde nasci nada mais

tenho um endereço
uma rua um número de porta
um andar um espaço
onde correio recebo e durmo

escrevo minha gente
e encontro-a em qualquer geografia
se de injustiça vítimas forem

a minha terra é uma aldeia
onde de centenárias raízes
bebo a água dos dias por haver

escrevo-me aqui

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(torreira; s. paio; 2017)