
http://www.noticiasdeaveiro.pt/pt/48035/abril-num-pais-de-maioria-nao-praticante/

quando el-rei apareceu
temerosa d. isabel
recolheu o manto
que levais aí senhora
perguntou el-rei
são cravos meu senhor
mostrai-me quero vê-los
sabeis como sou curioso
aberto o manto
cobriu-se o chão
de cravos vermelhos
mas senhora
hoje não é 25 de abril
será amanhã
meu senhor
será amanhã
é amanhã

(coimbra; 25/04/2017)
eu sou nunca
sou o que não devia ser
sempre fui sempre serei
perdi a noção do tempo
todos os dias são hoje
eu sou nunca
habito o labirinto
de andar por aí
a rasgar sombras
escorre-me sangue das mãos
é sempre meu mesmo se não
é sempre meu

(cais do bico; anos 70)

“Prémio Leya 2017 na próxima sessão das «5as de Leitura»
A sessão de abril do projecto de incentivo e promoção da leitura «5as de Leitura», marca encontro dia 19 de abril, pelas 21h30, na Biblioteca Municipal, com João Pinto Coelho, vencedor do Prémio Leya 2017, com o romance «Os loucos da Rua Mazur», uma obra que nos faz regressar à Polónia da Segunda Guerra Mundial, que “sangra feridas históricas e nos desafia a olhar o Mal onde nunca o vemos: dentro de nós”.
Biografia: João Pinto Coelho nasceu em Londres em 1967. Licenciou-se em Arquitectura em 1992 e viveu a maior parte da sua vida em Lisboa. Passou diversas temporadas nos Estados Unidos, onde chegou a trabalhar num teatro profissional perto de Nova Iorque e dos cenários que evoca neste romance.
Em 2009 e 2011 integrou duas acções do Conselho da Europa que tiveram lugar em Auschwitz (Oswiécim), na Polónia, trabalhando de perto com diversos investigadores sobre o Holocausto.
No mesmo período, concebeu e implementou o projeto Auschwitz in 1st Per-son/A Letter to Meir Berkovich, que juntou jovens portugueses e polacos e que o levou uma vez mais à Polónia, às ruas de Oswiécim e aos campos de concentração e extermínio. A esse propósito tem realizado diversas intervenções públicas, uma das quais, como orador, na conferência internacional Portugal e o Holocausto, que teve lugar na Fundação Calouste Gulbenkian.
Em 2012 publica «Perguntem a Sarah Gros», o seu primeiro romance. O seu romance seguinte «Os Loucos da Rua Mazur» foi o vencedor do prémio LeYa 2017.”
(programa das 5as de leitura)
da sessão que teve lugar no dia 19 de abril, fica o registo possível
é
é no tempo
que o homem
se desnuda
sê paciente

tiago capelo
(torreira; cirandar; 2016)
(…)
ao contrário
do artista
a memória
só concebe
esboços

(armazéns de lavos; rer; 2017)
o livro
reinventar o tempo
por dentro
os amigos ainda são
encho-me de mim
e sou de novo
por ser neles eu
um sorriso um olhar
um abraço
empresto-lhes vozes
inventadas
palavras onde moram
é de memórias
que o livro se faz

(ti miguel bitaolra;torreira; 2012)
quando

quando amanhã
for ontem
quando tu tiveres
sido
sem nada seres
nada restará de ti
a não ser o nada
que foste

(torreira; s. paio; 2017)
a pancada

será forte a pancada
de mar
respeito os homens
no barco
digo-te que maior
a dor
se em vez de mar for
de homem
a pancada

(torreira; 2013)
revisitar
revisitar o ontem
com os olhos de hoje
não é reescrever
o passado
mas sim relê-lo
começar a viagem
pelo fim
é privilégio do tempo
lavo os olhos
na espuma do mar
e ardem-me
estranho seria se não

recriação da xávega com bois
(espinho; 2012)