conheço
conheço muitos
ladrões do presente
assassinos de futuros
mas
ainda não encontrei
ladrões de passados
talvez por isso
ainda tenha o meu

(torreira; safar das redes; 2013)
conheço
conheço muitos
ladrões do presente
assassinos de futuros
mas
ainda não encontrei
ladrões de passados
talvez por isso
ainda tenha o meu

(torreira; safar das redes; 2013)
por vezes dói
habito
o meu tempo
e sou
por vezes dói
recuso-me
a não ser
recuso-me
por vezes dói
eu sou eu
mesmo se
por vezes dói

(armazéns de lavos; enfeitar; 2017)
essencial
essencial a corda
as mãos
tu nelas inteiro
essenciais as mãos
a corda
tu nelas sempre
essencial tu
fazedor de

(costa de lavos; 2017)
fosse eu árvore

olho para o chão
apanho uma folha
uma árvore pariu
um poema

(torreira; regata da ria; 2009)

porque não sou deus
(deus escreve direito
por linhas tortas
diz o povo)
porque não sou
deus
tento sempre
escrever a direito
e sai-me quase
tudo torto

(torreira; 2012)
como se
como se dança
os corpos
como se música
os sons
como se agora
o antes
como se aqui
o longe
nada mais falso
que o óbvio

safar redes é trabalho de casal
(torreira; safar redes; 2013)
cálculos
quando se cansou
de somar
subtraiu
quando se cansou
de multiplicar
dividiu
sonhava com
o infinito
e encontrou
o zero
a matemática
não é uma ciência
exacta concluiu
nem eu

rer
(armazéns de lavos; rer; 2017)
oiço-te
escuto nas mãos
as vozes por dentro
oiço-te

(torreira; 2013)
sonhar

ser eu criança
o mundo
caber-me na mão
sonhar é o caminho
onde
começa o amanhã
ser todo o tempo
agora
eu criança sempre

(torreira; regata da ria; 2013)

o moliceiro “Dos Netos”
a cidade onde
restam da cidade
rostos difusos
nomes percursos
as ruas por onde
sons cores aromas
vozes gestos nós
na quotidiana
construção da memória
existimos para ser
o termos sido
habita
o que seremos

(coimbra; 2013)