os moliceiros têm vela (407)


pergunta ao mestre
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torreira; mestre zé rito; 2018

 
foram aprendizes nos estaleiros
dos mestres serviram
tudo fizeram que mandado fosse
 
não lêem os sofisticados desenhos
que vieram mais tarde
contar dos barcos a estrutura o ser
 
usam moldes e paus de pontos
saberes herdados na aprendizagem
não sabes o que são
pergunta ao mestre
 
poucos restam das antigas escolas
diria que uma mão de dedos cheia
basta para dizer quantos
 
por isso cada moliceiro fala do mestre
em silêncio
ou no símbolo que no leme o significa
 
não sabes o que é calafetar
pergunta ao mestre

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mãos de pescador
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torreira; 2006

há quem olhe para os carros, outros para a marca da roupa, outros para os rostos …. outros devoram com os olhos o que não comem
 
todos buscam o mesmo: conhecer
 
eu olho para as mãos e sei que aqui, aqui, encontro tudo.
 
as mãos do pescadores são rudes, gretadas, feridas, mas extremamente limpas.
 
são mãos que o mar lava e areia esfrega.
 
são mãos de trabalho, mãos de homens e mulheres que trazem nelas a história de uma vida, de um amor, de uma guerra, de uma faina,….
 
de uma gana de ganhar a vida no mar

“Considerações políticas sobre a beleza da mulher” de joao habitualmente


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“Considerações políticas sobre a beleza da mulher” faz parte do livro “poemas físicos da frente para a retaguarda na curva interior da estrada”

 

 

postais da ria (357)


sentar os amigos à mesa
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torreira; safar redes; 2019

 
sentar os amigos à mesa
da palavra
matar a fome de estórias
 
costume português este
o da mesa e nela nos juntarmos
para no repasto sermos
 
quantas mesas se vergaram
ao peso das ideias
 
ao longo da nossa história
quantas palavras
voaram por cima de toalhas
e foram alimento
 
sentar os amigos à mesa
apenas isso
viver para esse momento
 
crónicas da xávega (348)

crónicas da xávega (348)


ainda estou aqui
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torreira; ti alfredo fareja; 2005

 
escondi numa gaveta
todas as palavras difíceis
 
escrevi então as coisas simples
onde habita o sentir
 
a memória os amigos o tempo
entraram pelas palavras
como coisa sua
simples
 
perguntaram por mim
e com as suas palavras lhes respondi
 
ainda estou aqui
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torreira; ti alfredo fareja; 2005

 

“Para se falar…” de cláudia r sampaio


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o poema “Para se falar…” de cláudia r sampaio, faz parte do livro “Já não me deito em pose de morrer” [poemas escolhidos]

 

“quando o mar trabalha” o fotofilme


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início dos anos 70

em 2018 publiquei o meu segundo livro, com o título ” quando o mar trabalha” – está esgotado. um amigo, o amigo de sempre, fez com as as fotos do livro o filme a que assististe.
mas o livro não era só fotos, eram também “falas”, por isso ficam aqui algumas palavras, algumas “falas”.
aqui ficam três
“caminho na areia
não sou daqui
estranho este chão macio
quase não chão
quero ver os meus irmãos
trabalhadores do mar
saber de outras fainas
venho de negro
a minha cor desde que
também eu amo o mar
por isso
até morrer
o venho sempre visitar “
“sou a que fica em terra
à espera dele
a que trabalha desde que as pernas
suportam o corpo
até que o corpo as não sinta
sou a que grita
quando o mar está bravo
o barco sobe na crista da onda
o arrais
bota! bota! bota!
sou a que se faz ouvir no nevoeiro
dizendo que a terra é aqui “
“este rosto vos deixo em testamento
riqueza única amealhada
em vida
sou todos os que foram
fui todos os que serão:
destino com porta virada para o mar
este rosto vos deixo
de ser eu
Pescador da Xávega
este rosto vos deixo
cuidai de o não esquecer “
outras há que muitas são as “falas” das fotos
o livro entretanto esgotou, agora só juntando no mínimo 20 pedidos se podem mandar vir mais.
obrigado a todos os que me permitiram fazer este livro, editado pela ” Almalusa” que se responsabilizou pelo design também, com o empenhamento pessoal, como é hábito, do meu amigo jorge pinto guedes.