presunção

o meu amigo vitó (falecido)
quando eu já cá não estiver
e te sentares numa rocha
à beira mar
talvez te lembres de mim
talvez
(torreira; 2013)
presunção

o meu amigo vitó (falecido)
quando eu já cá não estiver
e te sentares numa rocha
à beira mar
talvez te lembres de mim
talvez
(torreira; 2013)
auto-retrato (4)

o meu amigo zé de gaia
o tempo escasseia
caminho
na lama da memória
apanho conchas
quase vazias
encho-as de rostos
pesco ao contrário
um chapisco nos dias
o silêncio a cobrir
um nome
arderei até
(torreira; 2014)
(a minha crónica de dezembro no “Notícias de Aveiro”)

manuel pego na sua #caçadeira a remar à ré – década de 90
No dia 13 de Maio de 2018, o Cais do Bico, na Murtosa, foi palco de um momento marco na história dos moliceiros tradicionais, o bota-abaixo do moliceiro Ferreira Nunes. Infelizmente pelo que vos contarei a seguir é também um dia triste e que servirá de alerta para o futuro.
ahcravo gorim *

manuel pego a levar a #caçadeira à vara – década de 90
A bateira mais pequena da ria de Aveiro é a #Caçadeira que, como a própria designação indica, era uma bateira usada para a caça e algumas artes de pesca solitárias. #Caçadeira sem qualquer outra designação acessória.
Entre os muitos mestres construtores, destacaram-se na construção da #Caçadeira, Joaquim Rato e Preguiça. Foi uma #Caçadeira construída pelo mestre Joaquim Rato – talvez a última em bom estado de conservação – que fotografei e medi, num armazém propriedade de familiares do mestre.
Comprimento– 4,5 metros ; Pontal – 0,30 m; Boca – 1,10m; Cavernas: 8

a #caçadeira feita pelo mestre joaquim rato

versão da #caçadeira a preto e branco
Como se pode ver era uma bateira muito pequena, normalmente só para uma pessoa, sem leme, nem traste e o mastro entrava num buraco existente no vertente. Era um barco muito leve, embreado e que o tripulante, normalmente caçador, podia facilmente transportar para seco e abrigar-se num coberto de junco ou canizia na espera da madrugada e da caça. Nos meus tempos de jovem cheguei a andar numa. Era a bateira que os emigrantes tinham para, no seu regresso temporário à Murtosa, fazerem as suas pescarias à fisga, à certela, ao candeio e grandes caçadas.
Nos meus arquivos encontrei uma foto, dos anos 90, de uma #Caçadeira, em frente ao Cais do Bico, já era só embreada por fora, tinha uma pintura alaranjada no interior. Ao mostrá-la ao balcão da Casa da Alcina, na Bestida, logo um companheiro, Carlos Litro, a identificou: era de Manuel Pego, funcionário da Auto-Viação da Murtosa, e nela o Carlos tinha feito muitas pescarias.
Ora no citado dia 13 de Maio, aconteceu também o bota-abaixo de uma bateira de recreio, a que deram o nome de “Menina da Ria”, com o comprimento de uma #Caçadeira, nada mais. Pintada de azul, amarelo, vermelho, branco e mais cores houvera, com leme, traste e mastro a entrar no “buraco do traste”. Só teria, repito, da #Caçadeira, sem o medir, o comprimento.
Logo ali foi identificada pela proprietária e pelo Presidente da Câmara da Murtosa como sendo uma “bateira caçadeira”. Ao Presidente da Câmara perdoa-se-lhe o não saber o que dizia, basta olhar para o logotipo que adoptou para o Município, o mesmo não se poderá dizer da sua proprietária que se diz estudiosa e defensora das embarcações tradicionais da Ria de Aveiro. Não me manifestei na altura atendendo à presença de amigos que tinham vindo de longe para assistir ao bota-abaixo do moliceiro. No entanto, perguntei a alguns murtoseiros, mais velhos que eu, se “aquilo” era uma #Caçadeira. A resposta imediata foi que não. Quem é que ia à caça com uma bateira colorida? Para cores havia as negaças.
Do bota-abaixo da dita bateira de recreio se fez divulgação e foi notícia, espalhando-se a falsa designação, associada a uma ainda mais falsa reprodução.
Imaginem a seguinte história. Um casal de jovens compra uma carrinha funerária em bom estado, pinta-a de cor de rosa, decora-a com corações vermelhos e adapta-a para caravana. Toda colorida, artilhada e preparada para passear, alguma vez alguém lhe chamaria carrinha funerária? Jamais! Era uma caravana para passeio.
É ridículo o exemplo? E o que fizeram à #Caçadeira? Pintam-na, fazem adaptações, chamam-lhe bateira-caçadeira, e são abençoados pelas entidades da terra.
Pior, se fizerem uma busca na internet usando o Dr. Google e escreverem “caçadeira” só vos aparecem armas, se escreverem “bateira caçadeira” vejam o que aparece. E assim o erro, que nos meios de comunicação tradicionais demorava anos a espalhar-se, hoje com a comunicação digital, reproduz-se a uma velocidade inimaginável.
A #Caçadeira, a mais pequena bateira da ria, tem de voltar a figurar de novo nas pesquisas do Dr. Google. Porque estou a escrever num jornal digital e a notícia vai ser reproduzida em publicações nas redes sociais, coloquei sempre o “hashtag” #, antes de Caçadeira. Facilita o encontrar da designação correcta associada a este conteúdo.
Podem perguntar porque esperei até agora para fazer esta publicação. Esperei muito, é verdade, mas tinha de investigar e testar aquilo que aqui afirmo, consolidar pesquisas. Este é o tempo.
Assim termina um ano de colaboração mensal no Notícias de Aveiro onde tive a liberdade de me expressar e desmontar algumas falsas verdades, que nunca foram desmentidas nem referidas pelos que as vão espalhando por aí.
Regresso em 2019, quando e com o que de interessante me parecer merecer escrita. Eu, como me conheço nesta fase da minha vida: sem outros compromissos para além dos impostos pelos médicos e por aquilo que me dá prazer fazer, quando me apetece fazê-lo.
Peço-vos que façam de 2019 o ano da #Caçadeira e da recuperação da sua memória, da verdadeira e não da que nos impingiram em 2018. Divulguem este artigo e as fotos.

postal com uma #caçadeira, da colecção de paulo horta carinha (1926)
Bom ano.
(nota: o facto de no artigo eu usar maiúsculas tem a ver com a natureza da publicação, excepção feita a #Caçadeira que foi propositado)
a crónica no “Notícias de Aveiro”
se houver deus

como se um soldado
desconhecido
perdido nos areais da costa
estreita-se o horizonte
esfumam-se os tempos de fartura
caminha ainda
interrogo-me por quanto tempo
quando já não os houver
erguerão monumentos
escreverão histórias
venderão livros e obras bastas
quando bastava terem feito
tão pouco para que a história
fosse outra
não lhes perdoeis senhor
que quem manda
sempre perdoado é
(espinho; 2012)
dos “artistas”

são e não são
depende de
conheço alguns
não gosto deles

(torreira; s. paio; 2018)

durante o lançamento o poeta ouve a sua poesia
no passado dia 8 de dezembro, decorreu na biblioteca municipal da figueira da foz o lançamento do último livro de rui miguel fragas.
“Sobre o prumo das falésias” foi distinguido com menção honrosa pelo júri do Prémio de Poesia Soledade Summavielle, destinado a obras originais e inéditas, com um mínimo de trinta poemas.
para mais informação consultar : https://correiodominho.pt/noticias/fafe-jorge-pereira-vence-premio-de-poesia-soledade-summavielle/108899
do lançamento fica o vídeo possível
das árvores

o passar da pancada de mar
gosto das árvores
que se tornaram barcos
admiro os homens
que são árvores
dentro dos barcos
(torreira; 2010)

na foz do mondego rádio, na figueira da foz, conceição ruivo é autora do programa “pinceladas”, espaço áudio onde conversa sobre arte
nos dias 1 e 2 de dezembro de 2018, a conversa decorreu em torno do livro “quando o mar trabalha”
obrigado conceição ruivo por esta oportunidade, obrigado sansão coelho pela coordenação e obrigado foz do mondego rádio pela eficiência e qualidade da produção do registo áudio, de que aproveitei parte para a produção deste vídeo, com algumas das fotos que integram o livro
a conversa pode ser ouvista no vídeo
da beleza

há recachia na ria
ama o belo
não por ser teu
mas por ser
o moliceiro é

há recachia na ria
(torreira; regata da ria; 2016)
auto-retrato (3)

em cima do barco o ti augusto arruma as mangas
do entretecer dos fios
se faz a corda
aparelha-se o barco
na vida só sei do reçoeiro
a mão de barca
crêem alguns que um dia
aparelha-se o homem
do entretecer dos dias
se faz o tempo
(torreira; 2014)
…………………
notas
reçoeiro – a corda que fica em terra
mão de barca – a corda que o barco trará e fechará o lanço