
falam as mãos?
sabes ouvi-las?
as tuas mãos
como as usas?
dás a mão a quem?
quem te deu a mão?
dançam as mãos?
quantos dedos te arrancaram
quando deste a mão?
as mãos são
não sei se tu és
(coimbra; 2013)
a vida é um jogo de mãos

falam as mãos?
sabes ouvi-las?
as tuas mãos
como as usas?
dás a mão a quem?
quem te deu a mão?
dançam as mãos?
quantos dedos te arrancaram
quando deste a mão?
as mãos são
não sei se tu és
(coimbra; 2013)
a vida é um jogo de mãos
pois
antes de haver ponte
havia o rio e nadei
de todos os caminhos
fiz o meu
de todas as escolhas
fiz as minhas
fizeram-me para que
fizesse
mesmo sem o saberem
como sempre
fiz faço farei

o meu amigo buíça
(armazéns de lavos; achegar; 2017)
olhar é sentir

todos os dias assisto
a uma sessão privada
de cinema
o filme da minha vida
passa e repassa
vejo e revejo-o
todos os dias
o filme é diferente
como eu o sou
olhar é sentir
e nunca se olha
da mesma forma

(torreira; regata da ria; 2010)

eis a mulher da ria
eis a mulher da ria
a mãe a camarada
seja hoje dela o dia
canto nela o serem
muitas as que
ombro com ombro
braço com braço
nas bateiras
são camaradas
do seu homem

(torreira; 2009)
vejo sinto sou
talvez não fosse uma maçã
pode até nem ter havido paraíso
nem adão nem eva nem deus
cada um acredita no que quer
mas há a moeda
o fmi o bce o dólar o euro
o bitcoin pasme-se
há o homem e o fascínio
das moedas todas
lhe poderem dar tudo
talvez não exista céu nem anjos
nem inferno nem diabo
mas existe a ganância a cegueira
a lágrima a mágoa a alegria
a revolta a aceitação a ignorância
a fome o desperdício o luxo
existe ainda a propriedade
e os homens impróprios
isto não é crença é facto
e sei que existo eu
a questionar tudo isto
porque vejo sinto sou

carregar o saco na zorra
(torreira; 2012)
eu abri as portas da gaiola
(….eles passarão
eu passarinho
“mário quintana”)
não sei de bancadas
nem de lugar à sombra
gosto de sol e mar
e da força da vagas
ficou vazia a cadeira
que me guardaram
recuso o caminho palavroso
onde não nasceram gestos
cantam de poleiro
aves de arribação
eu abri as portas da gaiola
para voar
é tarde para me cortarem
as asas

o meu amigo paulo formiga
(armazéns de lavos; mexer; 2016)
o meu amigo jaime

o que a vida separa
há datas que unem
hoje estivemos em festa
jaime
a festa de abril
a festa da liberdade
a festa do encontro
hoje estivemos em festa
jaime
vimos crianças muitas
jovens tantos
nós menos que no ano
passado
a lei da vida disseste
mas hoje
hoje estivemos em festa
jaime
(prof. jaime do couto ferreira; coimbra; 25 abril 2018)

quando el-rei apareceu
temerosa d. isabel
recolheu o manto
que levais aí senhora
perguntou el-rei
são cravos meu senhor
mostrai-me quero vê-los
sabeis como sou curioso
aberto o manto
cobriu-se o chão
de cravos vermelhos
mas senhora
hoje não é 25 de abril
será amanhã
meu senhor
será amanhã
é amanhã

(coimbra; 25/04/2017)
eu sou nunca
sou o que não devia ser
sempre fui sempre serei
perdi a noção do tempo
todos os dias são hoje
eu sou nunca
habito o labirinto
de andar por aí
a rasgar sombras
escorre-me sangue das mãos
é sempre meu mesmo se não
é sempre meu

(cais do bico; anos 70)

“Prémio Leya 2017 na próxima sessão das «5as de Leitura»
A sessão de abril do projecto de incentivo e promoção da leitura «5as de Leitura», marca encontro dia 19 de abril, pelas 21h30, na Biblioteca Municipal, com João Pinto Coelho, vencedor do Prémio Leya 2017, com o romance «Os loucos da Rua Mazur», uma obra que nos faz regressar à Polónia da Segunda Guerra Mundial, que “sangra feridas históricas e nos desafia a olhar o Mal onde nunca o vemos: dentro de nós”.
Biografia: João Pinto Coelho nasceu em Londres em 1967. Licenciou-se em Arquitectura em 1992 e viveu a maior parte da sua vida em Lisboa. Passou diversas temporadas nos Estados Unidos, onde chegou a trabalhar num teatro profissional perto de Nova Iorque e dos cenários que evoca neste romance.
Em 2009 e 2011 integrou duas acções do Conselho da Europa que tiveram lugar em Auschwitz (Oswiécim), na Polónia, trabalhando de perto com diversos investigadores sobre o Holocausto.
No mesmo período, concebeu e implementou o projeto Auschwitz in 1st Per-son/A Letter to Meir Berkovich, que juntou jovens portugueses e polacos e que o levou uma vez mais à Polónia, às ruas de Oswiécim e aos campos de concentração e extermínio. A esse propósito tem realizado diversas intervenções públicas, uma das quais, como orador, na conferência internacional Portugal e o Holocausto, que teve lugar na Fundação Calouste Gulbenkian.
Em 2012 publica «Perguntem a Sarah Gros», o seu primeiro romance. O seu romance seguinte «Os Loucos da Rua Mazur» foi o vencedor do prémio LeYa 2017.”
(programa das 5as de leitura)
da sessão que teve lugar no dia 19 de abril, fica o registo possível