cálculos
quando se cansou
de somar
subtraiu
quando se cansou
de multiplicar
dividiu
sonhava com
o infinito
e encontrou
o zero
a matemática
não é uma ciência
exacta concluiu
nem eu

rer
(armazéns de lavos; rer; 2017)
cálculos
quando se cansou
de somar
subtraiu
quando se cansou
de multiplicar
dividiu
sonhava com
o infinito
e encontrou
o zero
a matemática
não é uma ciência
exacta concluiu
nem eu

rer
(armazéns de lavos; rer; 2017)
oiço-te
escuto nas mãos
as vozes por dentro
oiço-te

(torreira; 2013)
sonhar

ser eu criança
o mundo
caber-me na mão
sonhar é o caminho
onde
começa o amanhã
ser todo o tempo
agora
eu criança sempre

(torreira; regata da ria; 2013)

o moliceiro “Dos Netos”
a cidade onde
restam da cidade
rostos difusos
nomes percursos
as ruas por onde
sons cores aromas
vozes gestos nós
na quotidiana
construção da memória
existimos para ser
o termos sido
habita
o que seremos

(coimbra; 2013)
o momento
o momento não é
errado nem certo
o momento é
substantivo e absoluto
adjectivá-lo
é querer ser dono
do impossuível
sê o instante pleno
o momento

(torreira; 2013)
a escolha
para além da janela
a rua
para além do horizonte
o mundo
para além do agora
o amanhã
para além do quero
o posso
para além de mim
a escolha
a tua

(bestida; safar; 2011)
não te preocupes

ninguém te escreverá
para a tua última morada

(torreira; 2013)
não sei
a música dos corpos
a sinfonia
o esforço conjugado
a equipa
recordo a mesa posta
a família
a meta aproxima-se
o desfecho
não sei do vencedor

(torreira; corrida de chinchorros; 2012)
o brilho do sal
súbito
tudo é nada
do pouco
que na mão
num sopro tudo
se foi
a memória resiste
onde o presente
abraça o espanto
uma mão parada
no tempo
ainda te acaricia
no brilho do sal
a luz refaz-se
para ser sol
só
no brilho do sal

(morraceira; rer; 2016)
da partida
o fechar da porta
tantas portas
no fecho de uma só
o olhar último
antes de
guardado para
as falas do tempo
memórias
de dias tantos
não sei se sabes onde
o sol vai nascer amanhã

(torreira; 2012)