da vida

o jacinto arruma as redes da solheira
na nascente saberá
o rio do mar?
(torreira; 2018)
da vida

o jacinto arruma as redes da solheira
na nascente saberá
o rio do mar?
(torreira; 2018)
todo o tempo

o carregar do saco
olhar os rostos
lembrar os nomes
dizê-los
os amigos vêm
pela mão
das palavras
pelo olhar
que os resgata
todo o tempo
é agora
(torreira; 2012)
da ilusão

um mais um
quantos são?
o total depende
sempre de ti

(torreira; s. paio; 2011)
do sonho

tudo se desgasta
só tu permaneces

(torreira; s. paio; chinchorros; 2013)

o ti américo, numa ida ao mar em 2011, o primeiro ano em que trabalhou na torreira
a 23 de outubro de 2009, participei no museu de ílhavo, num colóquio que tinha por título “Falas do mar/Falas da ria”, aí se questionou o porquê de serem conhecidas tantas falas dos trabalhadores da terra e não serem muito conhecidas falas de pescadores..
no dia 18 de novembro, num espectáculo intitulado “Quando o homem lavrava o mar”, realizado na sala dos “caras direitas”, na figueira da foz, passou um registo fílmico sobre o alar manual das redes das traineiras, e era perfeitamente audível a fala/canto com que os pescadores marcavam o ritmo da alagem.
em 2016, pedi ao ti américo, pescador de esmoriz mas a trabalhar na torreira, na altura com 78 anos como refere no video, que cantasse como o fazia no tempo em que, “puto” ainda”, ia ao mar.
não fica letra completa, mas fica o que a memória preservou
disseram-me alguns pescadores que era hábito, quando iam ao mar, entoar o padre nosso cantado de acordo com o ritmo dos remos, não consegui porém, na torreira, recolher qualquer registo.
este é o único que consegui até hoje. e vale muito.
obrigado ti américo
(torreira, 18 de agosto de 2016)
da amizade

há quantos anos
foi ontem?
(torreira; safar; 2018)m safa
pescador

não saber onde
ignorar o quê
crescer para
ser maior que
vencer o mar
ganhar terra

(torreira; 2010)
sorrio de mim

safar as redes da solheira
sou a memória
de ter sido
habito-me emalhado
na rede dos dias
reinvento-me
em tudo o que faço
sorrio de mim
(torreira; porto de abrigo; 2013)
santa ignorância

o sacudir do saco
espanta-me a ignorância
dos que sábios se dizem
predicando asneiras
como se verdades porque
por si proclamadas
assusta-me a velocidade
com que o erro se propaga
pela mão desta gente
o que foi já não é
santa a ignorância
que constrói os dias
(torreira; 2011)
viagem

a mulher, a muleta, o arinque, o barco adivinha-se, o mar sente-se
olho e sinto
como se hoje
a caminhada começa
pelo fim
que pernas estas
os olhos
por que caminhos
me levam
o sentir
as palavras
vou e fico
viajo em mim
(torreira; 2009)