crónicas da xávega (154)


dar voz a quem

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saco seco, sacudido, para cima da zorra

a fotografia aos fotógrafos
a poesia aos poetas
nada mais vos quero deixar
que a memória das gentes
as palavras do que sinto
sou ou tento ser

tenho a noção
do quão pouco valho
mas não seja por isso
que nada faça

como esta gente carrega
as redes que ao mar se hão-de fazer
também eu dou o que tenho
sabendo que mesmo pouco
falta fará que seja feito

leio vejo escuto
com nada fico
se tenho dou reparto
migalhas sejam
como estas

pão à mesa de quem
não tem voz

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a companha são todos

(torreira; companha do marco; 2015)

postais da ria (155)


estar vivo é perigoso

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olhar para dentro de tudo

só te saberás
se tentares ser mais

o mais desculpas serão
para seres o de sempre

o do sofá da sala
do pão certo à hora certa
sobrevivente de ti

estou cansado até
ao mais fundo de mim
doo-me de tanto

estar vivo é perigoso

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fotografar é sentir com os olhos

(torreira; s. paio; 2014)

crónicas da xávega (153)


HOMENS

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a pancada é dura

sei que antes de entrarem
no barco olham o mar

sei que se benzem
sei que têm fé

sei que precisam de
ir ao marpara ganhar a vida

porque gostam
porque é um desafio

porque são HOMENS

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HOMENS

(praia de mira; companha do zé monteiro; 2010)

crónicas da xávega (152)


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o stalone, o horácio, o calão, a mão de de barca, a manga

ao fundo virá o saco

no fundo do saco, talvez peixe

se peixe houver, que peixe será

se for do vendável, a como o comprarão, se é que o comprarão

é peixe fresco, é peixe do mar, é suor desta gente

quem o come, come ouro, mas alguns ainda o querem dado. estão de férias e esquecem-se que só o estão, porque lhes pagaram o ano inteiro.

quando aqui chegares traz mais
que uma máquina
um fato de banho
um desejo de sol e mar

traz o entendimento
que esse
nunca o deixes ir de férias

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(torreira; companha do marco; 2013)

crónicas da xávega (151)


meditação breve

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a fotografia aos fotógrafos
a poesia aos poetas
nada mais vos quero deixar
que a memória das gentes
as palavras do que sinto
sou ou tento ser

tenho a noção
do quão pouco valho
mas não seja por isso
que nada faça

como esta gente que espera
os que ao mar se hão-de fazer
também eu dou o que tenho
sabendo que mesmo pouco
falta fará que seja feito

leio vejo escuto
com nada fico
se tenho dou reparto
migalhas sejam
como estas

pão à mesa de quem
não tem voz

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(torreira; companha do marco; 2009)

cheguem os que ao mar vão, que tudo está pronto para a partida e a voz de mando do arrais

postais da ria (152)


boas manel

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éramos jovens e cantávamos
mal eu e tu
os artistas eram outros mas a festa
éramos todos

quarenta cinco anos lá vão
regressaram hoje
quando soube que tinhas
não sei como dizê-lo

só sei que não voltarás
a responder-me
sempre que te falar

direi “olá manel”
e só o silêncio do outro lado

começo a ter muitas respostas
de silêncio

mas voltemos à festa ao sermos
jovens e ser verão
haver um monte branco
monte branco mesmo
o francês
os passeios rente à ria
as cantorias com e sem violas
as conversas

quarenta e cinco anos manel
é muito tempo

mas estás agora aqui comigo
em silêncio
enquanto os ouvimos cantar
e tocar
na areia da praia que também
já não é

abraço manel
é bom estar contigo

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(ria de aveiro; cais do bico)