postais da ria (135)


a capa

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o salvador e o falecido pai, ti domingos, cirandam berbigão

não lhes conheces
o rosto o nome
o quanto

à mesa saboreias
o que deles

olhas os registos
estudas contrastes
enquadramentos

outro repasto
para outro prazer

regressarás quando
só porque viste
saboreaste sentiste

mas não lhes sabes
o nome o rosto
a vida

não contas a estória
lês do livro a capa

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as cores da ria não dizem tudo das suas gentes

(torreira; cirandar)

postais da ria (134)


ser feliz aqui

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caminho pelo olhar
e sonho

ignoro o por detrás
e fico-me

pela superfície vazia
onde tudo

pode ser o que eu
quiser

despedi da paisagem
o ruído

das gentes e seus dramas
esqueci

o indesejável saber da
injustiça

inventei ser feliz aqui

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(torreira; porto de pesca)

os moliceiros têm vela (183)


a história não é estória

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longe e perto

tenho o tamanho
que tenho
nem mais nem menos

saber o meu tamanho
é saber de mim
é essa a minha grandeza

não te temo por maior
que grande é o vendaval
e passa e morre e foi

digo-te que se quiser
terei o tamanho do tamanho
que tu tens e isso

faz de ti
alguém do meu tamanho
e de mim

um outro muito maior que tu

é com essa ilusão
de falsa grandeza
que do nosso prato
comes sentado à mesa

eu sei que vamos crescer
e papas na tua cabeça
comeremos mais uma vez

a história não é estória

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é na meta que se vê o tamanho

(torreira; regata do s. paio; 2014)

postais da ria (133)


parabéns amélia

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o silêncio ouve-se

um alarme soou
no telemóvel
a minha memória
depende dele

mas
hoje não te telefono
sei que não atendes
não atenderás mais

escrevo-te
ouço-te vejo-te
resistes
com a energia
que só tu

“por favor
não me ponham de baixa”

não
não foste tu que desististe
tu nunca desististe de nada
foi a vida que desistiu de ti

parabéns amélia
quero que saibam
que hoje fazes anos

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um postal para a amélia

(torreira)

postais da ria (131)


não merecem

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a alar a solheira

fizeram-se homens
ainda crianças
na escola dos barcos

fazem de cabeça
as contas
das malhas das redes

nunca têm nos bolsos
quanto baste
para poderem dizer

vou de férias

partem para longe
vão de viagem
em busca do pão
que a ria nega
o comprador não dá

sei deles o suficiente
para vos dizer

não merecem

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não ser de oiro a pescaria

(torreira)

crónicas da xávega (128)


são pescadores

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o chegar do saco

há quem deixe nome
obra e fama
herança quanto baste

há quem nada deixe
porque nada foi
no tanto de ter sido

oferecem o corpo
ao mar
vestem-se de vento
e areia

perdem-se à noite
por onde mais
ninguém senão eles

são ninguém
são gente
são pescadores

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há os que partiram, os que resistem e os que já não voltam

(torreira; companha do marco; 2009)