
ser ainda maior
ser maior que o medo
é arte de pescador

ah! mar dum raio
(torreira; companha do marco; 2015)

ser ainda maior
ser maior que o medo
é arte de pescador

ah! mar dum raio
(torreira; companha do marco; 2015)
a capa

o salvador e o falecido pai, ti domingos, cirandam berbigão
não lhes conheces
o rosto o nome
o quanto
à mesa saboreias
o que deles
olhas os registos
estudas contrastes
enquadramentos
outro repasto
para outro prazer
regressarás quando
só porque viste
saboreaste sentiste
mas não lhes sabes
o nome o rosto
a vida
não contas a estória
lês do livro a capa

as cores da ria não dizem tudo das suas gentes
(torreira; cirandar)
pouco

e o maria de fátima desliza nas ondas
peço pouco
não sei sequer pedir
estranham-me por isso
uns livros
algum tempo
comida quanto baste
sem banquete ser
sei-me pouco
pouco peço

arribar só é fácil para quem não sabe
(torreira; companha do marco; 2015)
dos conhecidos

chamam-lhe recachia
há os do não
há os do sim
há os do talvez
teme os últimos

há recachia na ria
(torreira; regata da ria; 2010)
ser feliz aqui

caminho pelo olhar
e sonho
ignoro o por detrás
e fico-me
pela superfície vazia
onde tudo
pode ser o que eu
quiser
despedi da paisagem
o ruído
das gentes e seus dramas
esqueci
o indesejável saber da
injustiça
inventei ser feliz aqui

(torreira; porto de pesca)
a história não é estória

longe e perto
tenho o tamanho
que tenho
nem mais nem menos
saber o meu tamanho
é saber de mim
é essa a minha grandeza
não te temo por maior
que grande é o vendaval
e passa e morre e foi
digo-te que se quiser
terei o tamanho do tamanho
que tu tens e isso
faz de ti
alguém do meu tamanho
e de mim
um outro muito maior que tu
é com essa ilusão
de falsa grandeza
que do nosso prato
comes sentado à mesa
eu sei que vamos crescer
e papas na tua cabeça
comeremos mais uma vez
a história não é estória

é na meta que se vê o tamanho
(torreira; regata do s. paio; 2014)
parabéns amélia

o silêncio ouve-se
um alarme soou
no telemóvel
a minha memória
depende dele
mas
hoje não te telefono
sei que não atendes
não atenderás mais
escrevo-te
ouço-te vejo-te
resistes
com a energia
que só tu
“por favor
não me ponham de baixa”
não
não foste tu que desististe
tu nunca desististe de nada
foi a vida que desistiu de ti
parabéns amélia
quero que saibam
que hoje fazes anos

um postal para a amélia
(torreira)
retrato com moliceiro em fundo

calam-se
existem não são
estão mas
sorriem muito
a todos
amanhã
serão lembrados
no registo
não na memória
dos seus
piquenos que são

(torreira; regata da ria; 2010)
não merecem

a alar a solheira
fizeram-se homens
ainda crianças
na escola dos barcos
fazem de cabeça
as contas
das malhas das redes
nunca têm nos bolsos
quanto baste
para poderem dizer
vou de férias
partem para longe
vão de viagem
em busca do pão
que a ria nega
o comprador não dá
sei deles o suficiente
para vos dizer
não merecem

não ser de oiro a pescaria
(torreira)
são pescadores

o chegar do saco
há quem deixe nome
obra e fama
herança quanto baste
há quem nada deixe
porque nada foi
no tanto de ter sido
oferecem o corpo
ao mar
vestem-se de vento
e areia
perdem-se à noite
por onde mais
ninguém senão eles
são ninguém
são gente
são pescadores

há os que partiram, os que resistem e os que já não voltam
(torreira; companha do marco; 2009)