a fuga ideal
o poema
dobrou-se sobre si
olhou-se pensou-se
disse-se
o poeta deitou-se
adormeceu coberto
de palavras
dormir não é
o melhor remédio
fechar os olhos
é viver por dentro
a fuga ideal de ser

(torreira; 2010)
a fuga ideal
o poema
dobrou-se sobre si
olhou-se pensou-se
disse-se
o poeta deitou-se
adormeceu coberto
de palavras
dormir não é
o melhor remédio
fechar os olhos
é viver por dentro
a fuga ideal de ser

(torreira; 2010)
o beijo

salgados serão
os lábios
se de mar
o beijo

(torreira; pancada de mar; 2016)
no dia 13 de maio de 2018 o moliceiro “FERREIRA NUNES” beijou pela primeira vez a ria, a este primeiro beijo chamamos nós “bota-abaixo”.
filho e neto de moliceiros, antónio ferreira nunes não andou ao moliço, mas para estes homens o moliceiro é um barco que lhes corre nas veias em direcção à ria.
porque era um sonho, porque queria deixar a memória de um tempo, sem apoios financeiros institucionais, investiu do seu bolso.
num terreno baldio, ao lado da casa onde mora, construiu um moliceiro. com a ajuda do mestre zé rito, usando os paus de pontos e os moldes do mestre henrique lavoura.
o essencial ficou dito na entrevista breve, mas há uma coisa que não podemos esquecer: não há razão que explique este amor dos murtoseiros, dos homens e mulheres desta terra, pelos moliceiros.
será que quem manda não ouve, não sente?
admiro-os porque não posso fazer mais.
tenho orgulho na amizade que alguns têm por mim. tenho pena que sejam tão poucos, mas estou feliz por ver que, para além dos que foram moliceiros e por isso querem ter um a navegar, há uma nova geração que nunca andou ao moliço mas que
TEM MOLICEIROS NO SANGUE E OS QUER FAZER NAVEGAR
BEM HAJAM
(o testemunho do dia do bota-abaixo, num apontamento de vídeo, aqui fica)
existe
existe o tempo
e o lugar onde
habita o infinito
aí os olhos
se fecham
para sentir
uma mulher safa
redes por sobre
o silêncio da ria
existe o tempo
e eu porque aqui

(safar redes; torreira; 2017)
talvez
escolhidos e fixados estão os textos (51)
as fotos:
o livro está pois preso por pontas.
espero que venham a gostar de o ver/ter/ler tanto como eu, e os que comigo estiveram, gostámos de o fazer.
esperemos pelo sol e o mar.
talvez chegue a tempo de ir a banhos.
meditação
não tentes
entender tudo
procura entender-te

(armazéns de lavos; mexer; 2017)
o meu amigo ti miguel bitaolra

não ti miguel
não nos encontramos mais
você acreditava que ia
não sabia para onde
mas acreditava
eu quando for
vou para o mar onde você
já não estará
sei que que nos encontrámos
no melhor sítio do mundo
o nosso mundo
havia sempre o mar
ti miguel
o ti alfredo a companha
havia ti miguel
havia
os dias passam ti miguel
mas a cada dia
é mais de memória
a minha companhia
(torreira; 2009)

falecido em 2017
para o ti zé rebeço

(eu não estou descalço cravo
uso os sapatos que a minha mãe
me deu quando nasci)
o homem é a ria
o barco
o nome o mesmo
o vício
a casa sobre a água
o chão
às raízes
regressar depois de
ser de novo

(torreira; regata da ria; 2011)
memória de eugénio
rente ao muro
caminha uma sombra
eu para além de mim
sou apenas isso
lembra-te da sombra
em silêncio
branco sobre branco
escreveu o poeta

(torreira; safar redes; 2013)
