depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
sonharei sempre

sonharei sempre
de olhos abertos
atento às palavras
recuso-me a ser
o que cala e aceita
sem questionar
também o sol
que aquece e ilumina
projecta sombra
que dizer da lua
e das suas duas faces
sonharei sempre
de olhos atentos
questionarei
deixo as certezas
para os treinadores
de bancada
levo comigo a dúvida
companheira amiga
na busca de saber
sonharei sempre

o “A. Rendeiro” com o ti zé rebeço e manel antão
(torreira; regata do s. paio; 2015)

lê o livro e entenderás
em coimbra, no dia 11 de outubro, josé luis peixoto em conversa amena e intimista apresentou a sua última obra.
aquilo que de início poderá parecer uma incursão do autor pela literatura de viagens transforma-se, ao longo da leitura, numa obra que mais do que a países nos leva ao interior do mundo de josé luís peixoto.
um livro a não perder.
pelo interesse da conversa entre o autor e a assistência que durou quase duas horas, desdobrei a gravação em 2 vídeos
nota: a ilustração/miniatura que dá capa a este vídeo só será entendível por quem tiver lido, ou depois de ler, o livro
durmo mal

safam-se as redes, limpa-se o lixo
sei demais
mesmo sabendo pouco
vivi muito
durmo mal
não me digas o que és
poderás iludir-me
com o dizeres-te-me
as ilusões são breves
por isso são
o tempo e tu mesmo
me dirão de ti
o que não me disseste
espero-te sentado
enquanto leio
não sei muito
mas vivi quanto baste
e durmo mal
não me embalas
com cantigas
(torreira; 2017)
vim de onde

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vim de onde quase
tudo ardeu
se de luto os homens
de negro foi a terra
que se vestiu
fumos brancos breves
brotavam das cinzas
memórias do inferno
depois de ter visto
sentido e cheirado
as palavras são só isso
para que não se repita
a espada tem de cortar o fogo
antes de mais fogo haver
há quem ateie agora
o fogo que lhe dá jeito
por mim deixo-os arder nele

(19/10/2017)
o meu país

o carregar do saco
o meu país é habitado
mora nas minhas fotos
nas minhas palavras
o meu país é de carne
osso e muito suor
mal pago
o meu país dói-me
e se luto faço
é porque luto
todos os dias
o meu país
é habitado
ainda
o meu país é de carne
osso e muito suor
mal pago
até quando?
(praia da leirosa; 2017)
quando tudo arde

achegar
quando tudo arde
salgam-se as terras
de cinzas
a beleza do sal
é memória
de dias solares
límpidos
toma-a
(armazéns de lavos; figueira da foz; 2017)
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
eu tenho um sonho

como os barcos
assim fossem os homens
não os que neles
que maiores ainda são
dessem-se as mãos
as vontades os quereres
fizessem-se actos
as palavras ditas semeadas
esparsas solitárias
soubessem-se moliceiros
todos
diriam em voz de se ouvir
“somos esta terra
a sua memória o seu futuro
merecemos mais”

(murtosa; regata do bico; 2017)
destino de pescador

à memória de cipriano brandão (gamelas)
não têm nome
são pescadores
só o mar a areia e o norte
os conhecem
quando por feitos
direito tiveram
a nome e o publicaram
a terra esqueceu-os
partem sempre um dia
humanos que são
perdem-se no nevoeiro
que sobre eles lançam
aqui estão todos
os que foram
os que ainda são
os de amanhã
não têm nome
não sei se o terão

à memória de cipriano brandão (gamelas)
(torreira; 2016)