é tarde
é tarde
é sempre tarde
depois de

(morraceira; rer; 2016)
é tarde
é tarde
é sempre tarde
depois de

(morraceira; rer; 2016)
de véspera

de véspera
fazer as malas
as despedidas
pôr o bacalhau de molho
de véspera
fazer a preparação
para o exame do dia seguinte
matar o perú
de véspera
a ansiedade porque
tentar dormir para
dizem de mim que cedo chego
de véspera
ninguém morre
ninguém nasce
de véspera
nem estas palavras

(praia de buarcos; 2016)
‘miga
hoje no mercado de buarcos
fui abraçado por uma palavra
‘miga
conheci-a em setúbal
no bairro das fontaínhas
onde murtoseiros pescadores
quando a ouço regresso
aos tempos de eu menino
às vozes que pela ladeira
‘miga
diziam antes de começar
qualquer conversa
tempo em que todos
eram amigos e camaradas
por isso entre pescadores
‘miga
mais que a ouvir senti-a
há palavras assim
que nos chegam como se
um abraço

a bela e o jim cirandam berbigão
(torreira; cirandar)
fui com o vento
fui com o vento
com o mar te deixei
somos as nossas palavras
deverias sabê-lo
fossem barco as palavras
partiriam e voltavam
mas as palavras não são barcos
só sabem partir
há tanto mar no vento

o sacudir do saco
(torreira; 2016)
obrigado fernando

ando como se não soubesse
de outro caminho
o mar ao fundo os livros à mão
é dia de feira de rever amigos
da tertúlia das velharias
do fernando e da suméria onde
nunca fui como a quase tudo
as lombadas alinhadas
por temas e preços
bons os do fernando
patrono dos leitores ávidos
e pouco abonados
as primeiras as segundas
as que lhe calharam em sorte
os amigos agradecem
a atenção que lhes faz sempre
e são amigos todos
os que lhe compram livros
é sábado e eu não sei
se ainda há sábados para mim
todos os dias são domingo
para um reformado
ando como se não soubesse
de outro caminho
o mar ao fundo os livros à mão
comprei um livro
extraordinário
obrigado fernando

(buarcos, feira das velharias)
ilusão

só se perde
o que nunca se teve

(s. salvador; regata do bico; 2016)
das crianças
sei da inocência das crianças
por isso não estranhes
que as ame
são minhas irmãs todas

rer
(armazéns de lavos; rer; 2017)
olha as mãos
no princípio eram as mãos
ferramentas únicas
alfabeto de gestos e sinais
do dizer ao fazer
tudo por elas era
vê como falam as mãos
como quebram o silêncio
atenta nelas e ouve
encontrarás nas mãos as respostas
para as perguntas que não fizeste
nelas tudo é claro e transparente
olha as mãos
como se um outro corpo
e não o são

(torreira; 2016)
ser
rente ao mar
sempre rente ao mar
a minha gente
sou com eles

(praia da leirosa; 2017)
moliceiro

o tempo os homens as artes
memória
a árvore legada raiz
bandeira
um barco um nome
a terra
numa só palavra tanto
moliceiro
onde não há cultura não há
futuro
um sonho pode morrer assim

(torreira; s. paio; 2017)